Wilson, o subversivo

Ao marcar um gol de cabeça, nos acréscimos, o goleiro do Coritiba traiu o movimento de quem sempre jurou defender as redes

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Cada jogador em campo tem seu quinhão de responsabilidades, como uma caderneta de encargos a ser cumprida a cada jogo.

Mas de todos eles, só o arqueiro carrega um único ofício, uma singular tarefa e mais nada: defender as redes do seu time.

Existem, é claro, outras funções no escopo de labutas do goleiro, mas é todo secundário, pura perfumaria se comparado ao vigiar e proteger. Reposição de bola, tiro de meta, lançamentos por mais cirúrgicos que sejam não passam de ornamentos do seu posto, pequenos pêndulos pendurados numa joia maior.

Na essência, o arqueiro é um guardião solitário. A última fortaleza. Depois dele tudo é tragédia.

É isso o que faz dele o mais sui generis personagem das canchas: ele é o único daqueles onze a perseguir o anticlímax.

Quando criança, na frieza de um vestiário qualquer de uma escolinha de futebol, todo guarda-redes faz um voto secreto, uma promessa sua para si mesmo: defender com unhas e dentes – com a cara, se for preciso – as redes do seu time. E promete destruir toda e qualquer estratagema tramada ardilosamente para mexer no placar.

Acontece que Wilson é um subversivo. E mesmo tendo feito o voto, se rebelou contra a própria classe.

O crime se deu ontem, aos 50 minutos do segundo tempo do embate entre Coritiba e Rio Branco, pelo Paranaense. O Coxa perdia o jogo por 3 a 2, em pleno Major, quando Wilson cuspiu no seu juramento, atravessou o campo todo e foi ao outro lado fustigar o goleiro adversário, seu igual, seu irmão.

 

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Foi uma cena emblemática. Foi como se tirássemos todos os outros jogadores de campo e deixássemos somente os dois goleiros na grande área, num duelo de faroeste, cada um com uma bala.

E nessa peleja íntima, Wilson, 1m84, subiu alto o suficiente para enxergar a igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. E vendo a cruz, e vendo a santa, testou com força, pra baixo, como mandam os gibis de futebol, e de olho aberto – não porque é assim que mandam os gibis, mas porque queria estar acordado pra ver o milagre que ele mesmo estava anotando. E viu a bola correr mais rápido que o arqueiro adversário e viu a rede balançar ali, pertinho dele, num sinal que normalmente traduz infortúnio mas que agora, ali, significava a graça.

E o camisa 84 do Coritiba correu sem direção, sem saber bem onde queria parar ou o que queria fazer. E gritou e berrou e bateu contra o próprio peito e empurrou pra longe seus parceiros de camisa que queriam celebrar, desejando viver aquele momento sozinho, porque vida de arqueiro é sempre assim, solitária e desabitada até quando tudo vai bem.

 

Foto de capa: Giuliano Gomes / globoesporte.com  |  Foto de apoio: Gazeta do Povo

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