Voltemos à vida, aquilo que existe entre uma Copa do Mundo e outra

Agora, já não temos mais os dribles de Gervinho e a garra de David Luiz para nos animar. Teremos de encarar a vida

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Essa semana falei com meu bom amigo Carlos Felipe Faria, que nem bem me viu e já cravou palavras da mais obtusa sabedoria: “é chegada a vida, essa coisa que insiste em acontecer entre uma Copa do Mundo e outra”.

Acho que nunca ouvi alguém dizer coisa mais certa do que essa. A vida é mesmo uma intrusa entre duas Copas.

O fato é que cá estamos, nós e a vida, já sem a inefável companhia das 32 melhores seleções da paróquia. Agora, teremos que encarar cada um dos nossos problemas e deveres de frente, sem um drible alegre de Gervinho, sem o descompasso sísmico de David Luiz.

Aquela televisão ligada no meio escritório já foi inapelavelmente recolhida pelo pessoal do RH. As reprises garantidas no meio da madrugada – porto seguro dos insones – já estão cada dia mais minguadas. As bandeirinhas presas nas janelas dos carros já foram esquecidas numa gaveta que só voltará a ser aberta quando a Rússia for assunto.

E assim, aos poucos, nós vamos nos desligando de um paraíso artificial onde caímos a cada quatro anos.

 

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A parte mais cruel da Copa do Mundo é exatamente esta: existir apenas a cada quatro longas e intermináveis temporadas. Mas isso, essa distância demorada, é também o seu maior trunfo. É dessa saudade absurda que brota todo o nosso ânimo para recebê-la com a devida euforia quando, enfim, ela aparece – é a demora da noiva, afinal, que faz o noivo delirar de ansiedade no altar.

E ela, a Copa do Mundo, não a noiva, é dona de uma astúcia incrível: quando nos chega, vem assim, cheia de vigor. Logo nos primeiros dias nos oferece uma overdose abissal de Futebol, com direito a três jogos no intervalo de parcas 8 horas.

Mas à medida que a competição avança, ela, assim, como não quer machucar, começa a se soltar da gente. Primeiro, são os jogos da última rodada da primeira fase, que acontecem simultaneamente. Depois, no mignonzinho do certame, temos dois míseros embates por dia. Até que, enfim, chegamos à fase mais dura, que nos deixa um, dois ou até três dias inteirinhos sem uma única e fugaz partida de Futebol.

É a Copa do Mundo se despedindo lentamente da gente, nos desmamando carinhosamente.

Até que ela dá seu último suspiro, como ontem, no Maracanã.

Deixou um quadro assinado por Götze, subiu pela cúpula sagrada do Maracanã e desapareceu pelas nuvens do Rio de Janeiro.

Agora, temos de encarar a vida. E, se soubermos esperar, ela jura que vai voltar, descendo dos céus em Moscou, com dia e hora marcados, feito uma noivinha. A gente só pede, por favor, que ela não se atrase.

 

Foto: Getty Images

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