Vem, pai, você precisa ver o Maracanã

Em 1985, um torcedor do Coritiba não conseguiu ir até o Rio. Hoje, 30 anos depois, o filho dele imagina como teria sido.

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POR MARCELO VIEIRA GUIMARÃES | @OERUDITO

Eu nunca tive coragem de perguntar. Sempre achei que meu pai tinha um motivo bom pra não estar no Maracanã naquele dia. E motivo bom a gente não questiona. Era o maior jogo da história dos Coxa – ele fala assim, nesse plural que não concorda, quando se refere ao Coxa –, e se ele não tava lá, tinha um porquê.

Agora, 30 anos depois, eu volto ao assunto, não pra entender o que prendeu o velho em Curitiba, mas pra contar pra ele como foi.

A crônica a seguir é pra você, meu pai. É um relato do que eu imagino que tenha sido o estádio Mário Filho naquela noite. É pura fantasia, mas é de coração. Com 3 décadas de atraso, você finalmente vai ao Maracanã.

 

***

 

Hora do almoço, rodoviária Novo Rio. Seu ônibus acabou de chegar. E o saldo é de 13 horas de viagem e nem meia hora dormida. O Lexotan não resolveu.

Você nem bem desce do coletivo e já puxa a carteira de Free do bolso da camisa. Passa numa bodega qualquer, pede uma Coca-Cola e um pastel. Não dá pra almoçar porque são tempos difíceis. Estamos em 1985, você sabe.

Você olha pros lados e pensa como tudo mudou. Cinco anos atrás, quando você e a mãe viajaram em lua de mel, o Rio parecia outra cidade. Hoje, todo mundo veste camisa de futebol. Flamengo, Fluminense, Botafogo e Fluminense dominam. Bangu e Coritiba tem bastante, mas menos.

Você procura um banco vazio e deita. Vai dormir o que não dormiu no ônibus. Mais um cigarro – também vai fumar o que não fumou no ônibus – e dorme. Acorda assustado, procurando a mala. Ninguém te roubou, mas o tempo foi cruel contigo. Já não falta mais tanto pro jogo. Você corre pro ponto pra esperar a linha 406, que leva pro Maracanã. Maracanã, não – Mário Filho, que é como você chama.

Radinho no ouvido, trocando de uma AM pra outra. Todas falam do jogo. E todas são Bangu desde criancinha. Você descobre que o Castor de Andrade já pediu pra bateria da Mocidade Independente de Padre Miguel alinhar perto do estádio e preparar a farra. Já encomendou o chopp também, que é pra ir gelando. A festa tá pronta e você não engole. “Isso aí é empáfia”, diz, em voz baixa. E abre no caderno de esportes da Gazeta do Povo. Talvez ler alguém daqui te faça bem.

Varia entre o jornal e a janela, espiando um pouco do que o Rio tem de lindo. Mas o único mar que você vê é de gente. Uma multidão imensa, que só cresce. Até que, em dada altura, a Castelo Branco já não anda mais. Trânsito caótico. “Aqui tá bom, o resto eu ando”, você diz pro motorista, com o cigarro – ainda apagado – no canto da boca. Desce, acende o Free e sorri, satisfeito. Dá pra sentir o cheiro do Maracanã. E do álcool dos Opalas, dos Monzas, dos Fuscas que passam buzinando, com gente sentada na janela e chacoalhando bandeiras ao sabor do vento.

Você segue a multidão, pai. E anda feliz que nem piá com chuteira nova. Avista o estádio e acelera o passo, quer chegar lá logo, pra curtir o gigante ainda vazio.

A fila é imensa e você espera. “Que vazio que nada!”, pensa.

Queria uma cuba libre mas só vendem cerveja. “Me dá uma Coca mesmo.”

Lá na frente, apresenta o ingresso e entra. O Maracanã é lindo. Mais do que você esperava. Você logo procura a trave do Barbosa. E pensa nele, no Ghiggia, se entristece, sente raiva. “O negão não merecia isso.”

 

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O ingresso que nunca veio

Caminha um pouco, escolhe um lugar no meio do estádio, de onde dá pra ver os dois lados. O mesmo lugar onde você senta no Couto, só que no Maracanã. O povão vai chegando e espremendo você no seu lugar. Sentado não dá pra ficar, e você levanta.

Falta pouco pro jogo. Já é noite no Rio de Janeiro. E o Mário Filho vai ganhando aquele clima sôfrego de decisão. As mãos suam, os dentes rangem, a boca seca. Nunca tanto esteve em jogo pra você, pai.

De repente, você pensa em mim. E em como eu podia ter nascido uns anos antes pra estar ali contigo, pra te acalmar.

A essa altura, as arquibancadas já estão completamente tomadas. Os últimos repórteres e cinegrafistas deixam o campo. A fumaça dos fogos de artifício, teimosa, fica mais um pouco e dá um ar de sonho àquilo tudo.

Já são cinco minuto de atraso, mas, enfim, soa o apito de Romualdo Arppi Filho – começam os 90 minutos mais importantes da história do futebol do Paraná.

O Coritiba sai bem, mas recebe a pressão do Bangu. A torcida deles vaia a cada toque nosso na bola, e aplaude, incentiva e comemora cada minuto que eles têm de posse. Os dois conjuntos são agudos e procuram o gol. Você olha pro nosso banco e vê Ênio Andrade. Súbito, você sente uma pontada de confiança. “Esse cara já ganhou isso aqui duas vezes.”

A massa verde é modesta em comparação ao público carioca, que se une pelo colorado, mas te faz arrepiar, pai. O Coritiba é melhor e, de certa forma, a nossa torcida também. É menor, mas é uma só, é entrosada, canta o mesmo canto, grita o mesmo grito, vive a mesma paixão. Do outro lado, a torcida do Bangu é imensa, mas não é a torcida do Bangu – é do Fla, do Flu, do Bota, do Vasco. E por isso não canta o hino, não escala o time. Não sabe se o 5 é o Lulinha, o Ado ou o Zé Ninguém.

Aquele mesmo apito estridente que deu início ao jogo chama sua atenção novamente. É falta. É de longe. É pros Coxa. E Índio vai pra bola. Você lembra que ele não marca há 16 jogos, mas acredita que hoje o azar acaba. “Azar, não, porque é uma palavra muito pesada. Falta de sorte é melhor.” A barreira é formada. Não só uma, mas duas. Uma deles; outra nossa, com dois jogadores na frente da bola, atrapalhando o goleiro.

Índio toma distância, corre e chuta – Maracanã em silêncio enquanto a bola viaja. E ela, que havia 1.440 minutos que não entrava, voou como quem nunca esqueceu o endereço. Rasgou o ângulo esquerdo do goleiro do Bangu. Irreparável. Uma pintura. Um chute de manual de cobrança.

Você pula, pai, feito criança. E só pensa em mim. Em como eu deveria estar ali. Em como você queria ter conhecido a mãe antes só pra eu nascer mais cedo e estar ali agora.

 

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120 minutos antes da graça

A torcida do Coritiba explode, junto contigo, numa festança maravilhosa, saltando nas arquibancadas do Mário Filho. E a multidão multicolorida, que antes era puro barulho, agora é muda.

Nem dez minutos e você leva as mãos à boca, grita pra zaga acordar, xinga como se te ouvissem, mas nada funciona. Lulinha chuta a gol sem grande força, mas a bola encontra um zagueiro no meio do caminho, perde o sentido original e dorme no fundo da rede. É o empate do Bangu. “Tudo como dantes no quartel de Abrantes”, você diria se estivesse calmo. Não está. Então, não diz nada. Só cala. E sofre.

Acaba o primeiro tempo. Você e o povo ao redor se sentam, enfim. É a primeira folga desde que desceu do ônibus.

Tenta escutar o radinho mas o barulho não deixa. Não dá pra ouvir nada. Difícil entender se o chiado é do rádio ou do sotaque carioca dos locutores.

Os clubes voltam a campo. Arppi apita e o Bangu parte pra cima. O Coritiba se guarda, sai para os contra-ataques.

Bangu desce. Marinho é lançado e você não acredita no que vê: ele está 2 metros na frente do zagueiro, que não chega nem se estivesse a cavalo. O atacante deles entra na área, dribla Rafael, chuta e marca. O Maracanã estoura e você olha imediatamente para o bandeira, que corre pro meio de campo. Você desmorona, pai. Com os olhos marejados, olha pro relógio. E antes de entender quanto falta, ouve os gritos do Maracanã de repente murcharem. Ergue os olhos e vê o juiz com as duas mãos pra cima, impugnando o lance. Não valeu.

“Tudo como dantes no quartel de Abrantes”, você diz, agora que está calmo.

 

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Marinho marca, juiz anula, Maracanã murcha

Vem a prorrogação. E o resultado se mantém igual. Você pensa que não vai aguentar penalidades, mas você sempre aguenta. Pai sempre tem que aguentar.

Acabaram seus cigarros. E em 85 você não era nada sem cigarro, lembra? Você pede um pro cara na sua frente. “Um, não. Me dá logo dois, se não for pedir muito.”

Não é Free, é Marlboro. Parece um soco no peito. Mas é disso que você precisa.

Bangu começa batendo. Bola na cal, bola rede.

É a vez de Índio. No barbante.

Bangu bateu, gol.

Marco Aurélio, pelos Coxa, bate com firmeza e empata.

Bangu, então, faz 3 x 2.

Edson empata pra gente.

O Bangu desempata.

Lela vai pra cobrança e sai fazendo careta. É caixa.

Parece que ninguém nunca mais vai errar e que a taça vai ser rasgada no meio – metade fica no Rio, metade volta com você no Cometa.

É a quinta cobrança. E o Bangu converte.

Agora, é Vavá quem bate pro Coritiba. O tiro mais indigesto que há. Se ele perder, todos perdemos.

Ele põe a bola na marca branca, toma distância e anota.

Vamos às cobranças alternadas.

“Amigão, tem mais um Marlboro? É o último”, você mente. Estica as mãos trêmulas, pede fogo e mira o campo.

Ado, pelo Bangu, vai recomeçar. Ele traz bola debaixo do braço direito. Olha pra Rafael, aperta os lábios e toma distância.

Na arquibancada, você ouve o zum zum da turma, que sopra que ele é canhoto. E canhoto, você sempre me disse, bate pro lado de dentro do pé. Se mudar de ideia, periga colocar pra fora.

São três os passos dele até a bola. E quando chega nela, vê que Rafael ficou gigante, cresceu no centro do gol. Percebe que o goleiro Coxa pende pro lado que pretende mandar a bola e muda de ideia. Só que é tarde demais – bola pra fora.

O Maracanã é só suspiros. E um pedaço dele é todo alegria, mas você nem se mexe, pai. Sabe que não adianta comemorar se Gomes não fizer o dele.

 

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Uma volta no maior do mundo

Já é agosto. Dia 1º, 00h31.

O zagueiro do Coritiba caminha longos passos até a grande área. O tempo é tão lento que você pensa que daria pra fumar um maço inteiro enquanto ele anda. “Não seria má ideia”, conclui baixinho.

Gomes aperta a bola e a coloca no chão, na marca fatal. Dá três passos pra trás.

O Maracanã é todo silêncio. Você pensa em 1950, mas muda de ideia. “Dá azar. Azar, não. Falta de sorte.”

Você tem a impressão que ouve cada passo que Gomes dá em direção à bola. Parece que o som da grama amassada ressoa pelos teus ouvidos. De repente, você ouve o estampido fatal, da chuteira negra arrebentando a bola branca. E logo em seguida, ato contínuo, ouve o barbante do véu de noiva – aquele, do Nelson Rodrigues, que você lia pra eu dormir – sucumbindo à violência da bola.

É nosso!

Você fecha os olhos e chora, pai. Mas chora bem baixinho, que é pra ninguém ouvir. Se agacha na arquibancada e fica mudo como a torcida do Bangu. Mas não é uma mudez triste como a deles. Triste você era até ontem, pai. Hoje, você é o homem mais feliz que tem. É o Zezé sentado no tronco do pé de laranja lima, esperando o Portuga chegar.

E ali, naquele miudinho, naquela alegria que é só sua, você pensa em mim. Em como eu tinha que estar ali contigo, pai e filho dividindo o concreto do Maracanã.

E então, olhos embaçados e voz embargada, você estoura num grito imenso. Chora feito guri novo e abraça gente estranha.

O Coritiba é Campeão Brasileiro, pai. E você está lá pra ver.

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Um pronunciamento sobre

Vem, pai, você precisa ver o Maracanã

  1. Com os olhos marejados como fiquei ao ler sua cronica ficcao/realidade, me foi dificil de entender perfeitamente tudo que voce disse, mas uma coisa e certa e clarissima – voce esteve la comigo, mesmo nos seus dois aninhos e no lugar mais nobre que existe; dentro do meu coracao, bem la no fundo.Juntos vencemos.Te amo.

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