Uma dose de mácula para o imaculado

Alguma coisa tinha de ser feia na campanha do bicampeonato do Cruzeiro. Então, que fosse a chuva

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Este título de Bicampeão Brasileiro ainda vai ser celebrado por duas eternidades, geração atrás de geração, de Minas Gerais ao Golfo Pérsico. Mas seja como for, a estrela dourada costurada acima do peito dos militantes de Marcelo Oliveira nunca vai brilhar mais do que hoje. Porque essa é a hora do delírio e da algazarra. Esse é o momento preciso da celebração irrefutável, o instante de entornar desajuizadamente todo e qualquer gole de aguardente até que a garganta arranhe e prove que tudo aquilo é mesmo verdade.

E justo hoje, no estouro do êxtase, no tempo de coroar o campeão maior destas terras, choveu de modo obsceno sobre Belo Horizonte. Foi um aguaceiro sarcástico e risonho, que parecia vir afanar o brilho da glória azul.

Nuvens carrancudas e raios antipáticos acompanhavam torcedores desde suas casas, ofendendo a multidão celeste. Depois, tal qual o povão, a tempestade resolveu encostar no Mineirão e ficar por ali, como quem também queria ver o epílogo da saga estrelada. Com seu arsenal de choro e lágrimas dos outros 19 competidores, a chuva pairou sobre o campo e fez pó do padrão FIFA.

O campo de jogo virou um banhado bronco, rudimentar como os piores zagueiros. E o embate, notadamente o primeiro tempo, foi um espetáculo parvo, quase primitivo, com a bolando boiando mais do que rolando.

Mas essa chuva toda, senhoras e senhores, foi substancial. Diria até que foi mais do que isso – foi capital.

Sim, porque aquele miúdo dilúvio deu um toque essencial de humanidade a uma campanha canônica. Foi uma dose de mácula para o imaculado.

Um céu de brigadeiro, azul como as camisas na arquibancada, seria perfeito por demais. E a dúvida recairia inapelável sobre os feitos do Cruzeiro, posto que tudo no esquadrão de Marcelo Oliveira é acurado em demasia, primoroso além da conta.

Do massagista ao ponta-esquerda, tudo o que vem da Toca da Raposa parece insuperável, inalcançável.

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Desde a 6ª rodada, o Cruzeiro vive os prazeres do ar rarefeito que se forma no alto da tabela. De lá até aqui, foram 30 voltas jogando um Futebol virtuoso e sedutor.

Nesses 6 meses de chefia do certame nacional, raros foram os escretes que se afoitaram na briga contra o Cruzeiro. São Paulo, Corinthians e Internacional até levantaram os melões e ensaiaram um provocação, mas nenhum tinha um escrete da estirpe do onze cruzeirense.

Nesse meio ano de monarquia celeste, os mineiros nem sequer deram o gostinho da coroa a mais ninguém. Ao contrário, o time estrelado só fez aumentar a discussão em torno dos pontos corridos e mata-mata, tamanho desinteresse dos outros times no Nacionalzão 2014, que já nasceu registrado em cartório como posse inconteste da Raposa.

Tudo parecia perfeito demais. O Cruzeiro sobrava em campo, mantendo no banco Júlio Baptista, Dagoberto, Manoel e outros soldados que seriam titulares absolutos de inúmeras seleções se não tivessem o infortúnio de nascer num paiol de craques como o Brasil.

E eis, então, que veio a chuva. Um corpo estranho em meio à festa, um usurpador que veio para tirar um pouco desse quê de castidade carregado pela camisa azul, surrando a cara com a verdade inglória de que nem tudo pode ser perfeito o tempo todo.

A chuva veio para que os céticos, os derrotistas, os pessimistas pudessem, enfim, falar mal de alguma coisa que envolve o Cruzeiro. Falem, então, da drenagem do campo. Bradem ofensas ao Mineirão. Critiquem fervorosamente a chuva. Reprovem tudo quanto quiserem.

Mas não disparem um pio contra o Cruzeiro – não há uma só coisa a lamentar neste colossal time de Futebol.

 

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Foto: Alexandre Guzanshe / EM / DA Press

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