Uma cartinha para Garrincha

Queria que você visse, Mané, o monumento que erguemos em tua homenagem aqui em Brasília.

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Mané,

Estive agora em Brasília e vi o monumento que ergueram em tua homenagem.

É lindo. Mas lindo mesmo. Tão bonito que vim correndo te contar: eu queria que você soubesse que o estádio que leva o seu nome é o mais bonito que eu já vi na vida.

Vai ter gente dizendo que já viu coisa mais bonita, que já viu pela TV campo mais formidável. Mas é mentira, Mané. O teu estádio, um campinho que é só teu, é o mais bonito que já ergueram.

Você precisava ver. Quando eu cheguei lá, ele estava dormindo. Bem quietinho, ninguém em volta, portões fechados. Éramos eu e ele.

Nem parecia que amanhã o Brasil – o seu Brasil, Mané – vai jogar nele.

Pena que vai ser um jogo triste: uma disputa de 3º lugar de Copa do Mundo. Mas sabe que acho bonito que a minha primeira vez na sua casa seja assim, um pouco triste? Porque quando eu penso em você, Mané, eu fico assim também, um pouco triste.

Porque o seu Futebol também era um bocado melancólico. Uma explosão de alegria na arquibancada, um soco na boca do estômago fora dela.

Ainda hoje, 30 anos depois que você se foi, a gente ainda sente uma dor doída quando lembra de você. Acho que pelo jeito que você escolheu ir. Pela bebida, pela tristeza de você não ter driblado o copo como driblava um joão.

Mas sabe, Mané, isso de eu entrar na sua casa pela primeira vez tá me deixando mais perplexo do que ver o jogo da nossa Seleção.

Heresia, eu sei. Mas eu não posso evitar.

Porque desde que passei na frente daquele campo, hoje, eu não paro de pensar nisso. De pensar que você precisava ter visto aquele gigante todo de concreto, aquelas colunas retinhas – imagine só, logo as colunas, que você viveu de entortar, hoje são retinhas.

Você tinha que estar aqui pra ver.

Mas tudo bem: olha daí mesmo. Olha de onde você está, porque eu sei que a vista daí de cima é boa. Olha e me diga se você gosta do que a gente fez pra você.

Aproveita, Mané, e olha para os outros campos dessa terra também. E conta quantos deles levam nomes de gente que nem você, que tocava na bola com o cuidado de quem mexe em 90 milhões de coraçõezinhos? Não tem, né? É porque a nossa gente, aqui, adora homenagear gente chata, que veste terno e gravata. E eles acabam esquecendo de quem realmente traz alegria pro povo.

Então, Mané, pode estourar de felicidade: o Estádio Mané Garrincha é só seu. Não é do governador, do presidente, do cidadão que doou o terreno – é seu e de mais ninguém.

Chama o Sócrates, o Nilton Santos, o Bellini, o Vavá e toda a gente boa que vive por aí pra bater uma bolinha aqui embaixo enquanto a gente não estiver olhando. Eu não conto pra ninguém, eu juro.

Drummond dizia que com um lençol você fazia um latifúndio. Pensa no que você não pode fazer com um campo todinho pra você. Então, pega logo essa gente, distribui uns coletes por aí e vem usar a cancha que a gente ergueu em tua homenagem.

E se não for pedir muito, aproveite que daí de cima o estádio é redondinho e dá o ponta-pé inicial pro jogo de amanhã. Quem sabe assim, Mané, essa gurizada não trata de fazer um pouco do que você fazia muito e não empresta uma alegriazinha pra cada brasileiro na hora de dar tchau pra Copa do Mundo.

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3 pronunciamentos sobre

Uma cartinha para Garrincha

  1. Que lindo isso, cara!

    Leio esse texto pouco mais de um ano que ele foi escrito e fico lisonjeado que a torcida Botafoguense rebatizou sua casa de João Havelange para NILTON SANTOS.

    Parabéns pelo texto, velho!

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