Um passeio pelo bosque da aflição

O Clube Atlético Mineiro anda estreitando sua sórdida relação com o desespero

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A agonia é amiga íntima do Galo.

É só olhar para a camisa listrada e você vai ver, sentado sobre o ombro esquerdo, o pássaro sinistro do desespero.

Ele fica lá, aos assobios, meio aéreo, fazendo hora enquanto não há um pescoço para bicar. Mal um distraído veste a farda e o bicho, perverso, espeta a garganta e acende o tormento. Ele vive disso, de mordiscar o prazer direto da boca do torcedor do Clube Atlético Mineiro.

E essa relação cínica, velha como a história de Zezé Procópio, anda estabelecendo laços cada vez mais íntimos com o Galo.

Na Libertadores 2013, notem, o desespero só visitou o Independência das quartas-de-final em diante. Mas agora, em 2015, ele chegou mais cedo, já nos primeiros dois jogos, quando as sequelas das balbúrdias ainda estão saindo pelos poros. E já chegou mostrando os dentes, cobrando duas derrotas e ensaiando um precoce confiscar de passaportes.

Para o Atlético continuar com um sopro de vida e seguir aproveitando o Mercosul, era preciso estraçalhar um tabu de 35 anos: desde 1980, quando Beckenbauer ainda jogava, o Santa Fé não perdia em casa para uma agremiação de fora.

Mas é exatamente nessa hora, no momento capital da angústia, que o torcedor do Galo encontra prazer. É uma relação tórrida e sórdida com a dor, com o desespero de viver no limite, de experimentar o extremo.


 

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E quando os torcedores do país todo já duvidavam do Atlético, a massa sorria. Não que ela soubesse que tudo acabaria bem – ninguém nunca sabe –, mas porque ela sabia que o desespero é condição inóspita para os outros escretes, mas é cama quente para o Atlético Mineiro.

Ali, na amargura da incerteza, o povo de Minas se regozija.

Assim, em Bogotá, longe do calor do povão, o escrete de Levir Culpi deixou primeiro o pássaro do padecimento bicar todo e cada pescoço atleticano para, só então, depois de uma vasta sessão de tortura à mineira, fazer sorrir o torcedor.

Foi uma vitória maiúscula, erguida com alma e carne e cãimbras e dor, nascida da cabeça sensata e acurada de Lucas Pratto, que testou com volúpia para as costuras aos 13 do segundo tempo.

Daí em diante, o sofrimento foi amplificado, subindo na toada da buzina tocada pelo povão nas arquibancadas. Foram 32 minutos até o último apito, mas a impressão que se tinha era de que se podia ler Guerra e Paz em russo e ainda, de lambuja, começar o prefácio de Os Miseráveis, em francês. Porque o sofrimento – esse canalha – pode ser tudo, menos breve.

O fato é que ao estouro final do apito, o Atlético Mineiro estava na frente, tendo derrubado um magnânimo tabu e dado vida aos torcedores e à própria camisa, que agora está pronta para o que vem por aí, não exatamente viva nem perdidamente morta, mas trôpega e cambaleante, na medida do sofrimento, na bitola para o colossal.

 

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Foto de capa: Daniel Teobaldo, do soulgalo.com.br  |  Foto de apoio: Jose Miguel Gomez / Reuters

 

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11 pronunciamentos sobre

Um passeio pelo bosque da aflição

  1. Belo texto, meu caro.

    A Massa agradece… você consegue expressar em palavras, o sentimento que bate a 1000 km/h no peito do atleticano.

    Ganhou mais um leitor/fã!
    Aqui é Galo, porra!

  2. Fantástica sua descrição da agonia e incerteza vividas por todos os atleticanos que acompanharam o jogo!
    Realmente era clima de decisão, mas é justamente nestas horas que o Galo se agiganta e despreza a lógica, os tabus e qualquer tipo de previsão, como foram nas tres últimas conquistas!

  3. Excelente texto! Requintado, sem ser esnobe! Tenso, aflitivo, esperançoso, inconcluso, desesperador, EMOCIONANTE, assim como é torcer para o eterno Glorioso Clube Atlético Mineiro, o nosso velho e renovado Galão da Massa!

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