Um grão de pólvora num mar de calmaria

Fabrício chega ao Cruzeiro para ser um dissidente da mansidão celeste

carlos_eduardo_quadros

 

O time do Cruzeiro é infestado de boas almas. Talvez seja o onze mais afável desse brasilzão, reunindo figuras da simpatia de Fábio, Júlio Baptista e o comandante da nau da benevolência, Marcelo Oliveira.

Apear do Futebol crespo e malvado, o Cruzeiro é bonzinho em todo o resto.

Dagoberto foi, talvez, o último sujeito mais espinhoso a trajar a celeste, o derradeiro amigo da contenda e da confusão pueril. Com a saída dele, ficaram as almas piedosas, que pagam pra não entrar numa briga e dobram a oferta pra sair.

Mas eis que agora, no meio dessa imensidão azul de amenidade e bonança chega Fabrício, um sujeito que foi visto pela última vez estendendo docemente os dedos médios contra a própria torcida, arrancando o fardamento e vociferando contra todo e cada ser vivente num raio de 200 metros.

Ora, mas Fabrício não é mal sujeito, ponderarão os ponderados. De fato, não é.

Dentro da cancha, sob os olhos do povão, ele não é maldoso ou violento – foram 8 expulsões em 188 jogos, segundo o Footstats. Fora de campo, onde as câmeras não chegam, também não dá mostras de ser um sujeito vil.

Arrisco até dizer que numa eventual pelada entre bons moços e vilões, o ex-lateral canhoto do Internacional assumiria a 6 do esquadrão bonzinho.

Mas sobre Fabrício podemos dizer, sem qualquer embaraço, que ele tem uma cínica vocação para o estouro. Trata-se de uma genuína granada sem pino.

O episódio do Beira-Rio foi o mais acintoso da carreira dele, é certo, mas não foi o único. Ano passado, pelo Nacionalzão, o beque teve de ser agarrado pela camisa e segurado pelos meiões pra não entrar no vestiário do Palmeiras e sair com um rim do Bruno César na ponta de uma navalha. Impropérios contra árbitros em campo também são comuns como uma ida ao matinê na vida dele.

 

Foto: Lucas Uebel
Fabrício numa corriqueira contenda: dessa vez, com Bruno César, do Palmeiras, no Beira-Rio

 

E isso tudo pode ser bom. Talvez não para ele, que não coleciona exatamente amigos com esse jeitinho dócil, mas pode ser bom para o Cruzeiro, que está levando um fio desencapado para dentro de um banker que respira mansidão.

Mais do que um lateral esquerdo competente, Fabrício tem potencial para ser o patrocinador dos conflitos necessários, o formador oficial de angu na meia cancha, o acionador primário da rusga contra os argentinos numa partida áspera da Libertadores da América.

Esse tipo, sabemos bem, costuma fazer falta nos escretes brasileiros, que volta e meia são vistos sofrendo de bom-mocismo contra adversários munidos de má fé e cusparada nos Defensores Del Chaco desta vida.

Com ele trajando azul, é bem capaz de o Cruzeiro deixar de ser respeitado só pelo Futebol sagaz e bem jogado e começar a ser temido também pelo espírito de pugna, pela alma impassível e pelo sangue gélido de cangaceiro.

Afinal de contas, Cruzeiro é raposa. E raposa, a gente sabe, não é presa – é predador.

 

VEJA O CARTAZ DO GOL MAIS BONITO DE ALEX COM A CAMISA DO CRUZEIRO

 

Foto de capa: Carlos Eduardo Quadros / Gazeta do Povo  |  Foto de apoio: Lucas Uebel

 

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3 pronunciamentos sobre

Um grão de pólvora num mar de calmaria

  1. Como eu disse há umas semanas, o Cruzeiro de 2015 joga bem, mas joga como uma criança de cabelo penteado pela MÃE. O nosso sopro de esperança vem com FABRÍCIO pronto para adicionar certo tom de ROCKABILLY à esse penteado.

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