Um bigode para esconder a tristeza

O maior símbolo da mais doída das Copas se foi – e nós não sabemos torcer sem ele

gaucho_copa

 

Gaúcho, meu igual, meu irmão. Eu não te conhecia de forma pessoal e nem você sabia de mim. Mas eu tinha – e tenho ainda e terei sempre – um apreço sem igual pela tua figura: tu é, pra mim, a mais fina estampa do torcedor ideal, que é sacudido vorazmente pelas derrotas e se folga abundantemente nas vitórias. Tu sabes distribuir sorrisos e não sabes nem por onde começar a esconder a melancolia.

Teu sorriso recôndito, aliás, é um enigma maior que o da Monalisa, visto que a musa de Da Vinci tinha a boca às claras, ao nosso sabor, mas tu, não: tu a esconde por trás de um bigode farto, uma cortina de pestanas a encobrir tuas fraquezas e teus prazeres.

Eu não tive o privilégio de te conhecer, mas aprendi contigo mais do que todos os doutores são capazes de ensinar.

E preciso dizer, amigo querido, que chorei quando te vi chorando. E murchei quando vi aquele tua barba farta tentando esconder a boca triste no Mineirão. Eu tentei driblar o choro quando vi a Alemanha fazer o sétimo, mas estourei em lágrimas quando vi você sofrer.

Deixaste todo aquele bigode só pra cobrir tua tristeza, gaúcho. Mas não adiantou. Ela foi estridente e gritou dentro de cada um de nós, e nos chacoalhou, e nos pôr a sofrer mais do que aguentávamos.

Porque o teu sofrimento era o padecimento da nossa gente toda. Tu sofria por 200 milhões naquele soluço desolado e inconsolável.

Mas agora, gaudério, a dor acabou. Tua parcela de tortura já expirou.

Um câncer canalha te pegou. Um câncer distraído, que não sabia o quanto tu já havia chorado nessa vida de lágrimas e sal. E essa é a prova cabal de que essa doença é maldita, é vil. Essa praga sorrateira tem o dom de escolher sempre os melhores, os mais tenros – só morre de câncer quem é bom demais pra morrer de outro jeito, gauchinho querido.

E tu eras tão bom e tão cheio de carinho que,  mesmo no teu leito de morte, ainda na tua última cama, tu nos deixou uma última lição: pediu aos teus amados que jogassem tuas cinzas repartidas em três, uma na Arena do seu Grêmio, outra no Maracanã, num jogo da nossa Seleção, e uma terceira parte na tua Praia do Rosa, em Santa Catarina, onde tu vivia.

E assim, parcelado ao vento, tu vai e nós ficamos, vivos, porém cambaleantes. E nos perguntamos como será agora, quando as câmeras resolverem te procurar pelo Mário Filho, pra mostrar a tua felicidade, e encontrarem aquele parapeito vazio, sem bombacha, sem cuia, sem chapéu? Qual capitão abraçará aquela tacinha com a decência e o carinho com que você abraçou?

 

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Veja, gaúcho. Você foi o símbolo de uma ternura que já não existe – o último romântico. Ninguém mais derrama lágrimas pela Seleção, gaúcho meu. Era tu e eu. E tu me inspirava, e me dizia, com aquela dor pungente a cada derrota, que deveríamos guardar pesar e respeito pela camisa canarinho.

Agora, meu amigo, ficamos todos órfãos, largados ao riso canalha da vergonha, deixados à chacota do dia seguinte.

Sem você, as derrotas não doem como precisam doer e a humilhação não marca a pele a ferrete como deve marcar, pra nunca ser esquecida.

Agora, que você se foi, me brota a coragem de te pedir desculpas por sermos assim, por jogarmos assim. Merecias uma Seleção à altura do que tu foste pra ela.

Que ela fosse, então, poesia e prosa. E que encantasse o mundo como você encantou. E que inspirasse, e que trouxesse vida e esperanças aos coraçõezinhos de toda a nossa gente, como você fez.

Descansa em paz, amigo meu. E torça, daí mesmo, de onde estás, para que o teu exemplo inspire uma geração inteira de novos brasileirinhos ávidos pelo escrete nacional e, mais do que tudo, respeitosos quanto às dores e a agonia das derrotas e, sobretudo, das ferrenhas humilhações.

Que os nossos estádios todos façam minutos, horas, dias até de silêncio em tua homenagem, porque a torcida deve calar e sentir a tua partida mais do que a morte de qualquer um, posto que você nos ensinou a amar uma camisa que havia muito andava esquecida.

Tua dignidade, meu caro gaúcho, é a mais pura e imaculada forma de torcer. Vá em paz e saiba que tu não vai sozinho – junto contigo morre um pedacinho de cada um dos 200 milhões de brasileiros.

 

Foto: Michael Steele / Getty Images

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7 pronunciamentos sobre

Um bigode para esconder a tristeza

  1. E as lágrimas rolaram novamente…
    As palavras faltam nesse momento pra expressar nossa gratidao pela belíssima homenagem por ti prestada ao nosso amado Clóvis, nosso Gaúcho da Copa!
    Nosso guerreiro se foi,mas continuará presente em nossos corações eternamente e homenagens como a tua fazem o coração bater mais forte e mantém nosso amado vivo, pra sempre!
    Com carinho

    Debora (esposa), Frank, Marjorie, Karine e Gustavo (filhos)

    1. Sinto muito pela dor de vocês todos, dona Débora. E no meio da melancolia, me alegro por ajudar a contar um pedacinho da história desse homem que nos tocou a todos. Um grande abraço.

    1. A gratidão é toda minha, Georgina. Me toca profundamente que a crônica tenha chegado a vocês e, mais do que isso, tenha trazido um miudinho de alegria no meio de tanta dor. Um abraço fraternal do Velho.

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