Tu jamais serás esquecido

10 anos depois do gol 1000 em Grenais, Fernandão voltou ao Beira-Rio

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Beira-Rio, 10 de julho de 2004, 17h41. Internacional vs Grêmio.

Élder Granja, camisa 7 do Inter, conduz a bola pela direita. Olha para o grande retângulo e vê um sujeito alto, cabeludo, trajando vermelho.

O confronto histórico do sul soma, até esse momento, 999 gols.

Granja dá mais um passo, olha de novo e levanta o couro para o meio da área. O cabeludo sobe alto o suficiente para espiar meia Porto Alegre e testa para o barbante: está anotado o milésimo tento do monumental dérbi gaúcho.

Naquele momento, logo na sua estreia com a camisa colorada, Fernandão tatuava o nome na história do clube – e do Futebol.

Parasse ali e já seria uma figura sumariamente importante para a vida do Inter, mas ele fez mais. Assumiu a braçadeira de capitão e, duas temporadas depois, levou o escrete gaúcho aos dois maiores títulos de sua história: Libertadores da América e Mundial de Clubes.

Nascia, capitaneada pela camisa branca de Fernandão, o Campeão de Tudo. Do Oiapoque ao Chuí, de Punta Galinas ao Cabo Horn, do Brasil ao Japão.

Dez anos depois daquele cabeceio febril, Fernandão morreu.

 

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Beira-Rio, 20 de julho de 2014, 16h15. Internacional vs Flamengo.

Falta para o Inter na boca da área carioca. D’Alessandro ensaia uma jogada e arremessa o couro para dentro da zona do pavor. Ela passa por todo mundo e encontra o pé de Juan, que toca para Rafael Moura marcar inapelavelmente.

O camisa onze corre em desabalada carreira, alcança o banco de reservas e saca uma camisa – toda branca, número 9 nas costas e as 9 letras fatais em cima do número: Fernandão. Ele ergue o pano sagrado lá no alto, como quem quer mostrar para todo o Guaíba. Todo torcedor fita a camisa, e a camisa fita de volta, imponente, encarando olho no olho cada máscara que reproduz a cara do craque nas arquibancadas. Moura, então, deita a camisa no gramado, se ajoelha e lhe presta a maior das reverências.

O povão das arquibancadas, atento como mil câmeras, estoura num berro medonho, lavado de lágrimas, embebido em melancolia e aflição. Aos poucos, cada pulmãozinho presente ali no Beira-Rio começa a se contrair para gritar por Fernandão – quanto mais alto o berro, melhor ele ouvirá lá do alto, pensam.

A viúva e os filhos, endossando a homenagem, banham de lágrimas o gramado do Gigante.

Por toda cancha, e fora dela, faixas com a cara e o nome no aumentativo tremulam – o Beira-Rio é, por um instante, o Estádio Fernando Lúcio Costa.

Lá no fundo, no ponto mais visceral, todos nós sabemos que ninguém ali comemora o gol de Rafael Moura. Todo esse carnaval agridoce, mistura de melancolia e deleite, é uma saudação de pesar e respeito a um homem que honrou a camisa colorada até a última costura.

Sob a regência de um maestro finado, o Internacional e sua imensa torcida estabelecem um concerto fabuloso para todo o Brasil ver.

E nós, aqui, assistindo a tudo de camarote, entendemos, enfim, como é que se trata um ídolo.

 

LEIA SOBRE A INAUGURAÇÃO DO NOVO BEIRA-RIO

 

Foto: Jeferson Guareze/Futura Press

 


 

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6 pronunciamentos sobre

Tu jamais serás esquecido

  1. Emocionado, revi cada momento que o Nandão me proporcionou como torcedor. Tua delicadeza com o assunto e o reconhecimento de que se trata de um gigante que jogou no beira rio, tudo isso me mostra a importância de se fazer o que gosta, com a coragem da verdade. Obrigado, de coração.

    1. Bom demais vê-lo por aqui, Mariel. Uma honra. Fico feliz por poder ajudar a contar um miúdo pedaço da grande história do Fernandão no Inter. Grande sujeito aquele.

  2. Nossa, fiquei com nó na garganta, engasguei e ao final chorei!
    Que texto lindo, parabéns o FERNANDÃO será para sempre nosso ETERNO CAPITÃO!
    Abraços

  3. Caiu um cisco no meu olho aqui!
    Só espero que o árbitro não tenha dado uma de “modernista” e tenha aplicado um cartão amarelo para o Rafael Moura por conta dessa homenagem linda!

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