Toby e o arquiteto da nossa euforia

Como uma pequena reforma no Couto Pereira, em 1978, trouxe ao Coritiba o camisa 10 do maior título do clube

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Em 1978, quando o Couto Pereira já tinha alguma história pra contar e começava a sofrer os dissabores do tempo, o gigante de concreto armado precisava de um reparo ou dois. A cúpula do Coritiba, então, alinhou alguns operários pelo estádio, que iam assentando massa e assobiando pelos arredores da Rua Mauá.

Um destes obreiros, mais dado à fala, se achegou de um dos cartolas que acompanhavam a obra e disse, sem delongas, que conhecia um piá do norte do Paraná que tinha bola no corpo, guri risonho, cheio de dente branco na boca e nenhuma piedade nas pernas.

O dirigente, de orelha em pé, ouvia a tudo. E uns dias depois, Dorival Mateus da Costa, 16 anos, chegava na rodoviária de Curitiba, cuia numa mão, par de Kichute na outra.

Dali foi direto para o alojamento do Couto Pereira, onde espiava pelo vão da janela Pedro Rocha, Duílio e outras fábulas das canchas.

O tempo passou e Dorival virou Toby. E o menino foi ganhando espaço na cancha. Até que veio o ano da graça de 1985. E veio Ênio Andrade e veio Índio e veio Lela e veio Cammarota.

Depois veio o Sport, veio o Corinthians, veio o Atlético-MG num Mineirão lotado, veio o Bangu num Maracanã em cólera e veio a maior taça que o povo do Paraná já tinha visto.

Toby era, talvez, o cidadão mais feliz do mundo àquela altura. Os dentes, as fotos contam, não cabiam na boca. E a torcida coxa-branca saudava o maestro do time e o carregava no colo, feito rei recém subido ao trono.

Dos 29 jogos do Coritiba naquele certame, Toby jogou 28. Fez um único gol, mas fez mais do que os números contam. A falta que originou o gol do Índio no Mário Filho foi sofrida por ele.

E assim, seis ou 7 anos depois de chegar por essas bandas, Toby já era um herói. E heróis, vocês sabem, chamam atenção: no ano seguinte, ele já não era mais do Coxa. Foi para o Bangu.

Jogou também pelo Cruzeiro, pelo Vitória, pelo Operário Ferroviário. Vestiu mais algumas camisas e terminou a carreira no Sinop, do Mato Grosso.

Saudoso dos braços quentes do povão que o amou primeiro, Toby voltou a Curitiba. Veio experimentar, pouco a pouco, a graça que a nossa gente tinha pra dar a ele.

Não era funcionário do clube, mas vestia sempre a verde e branca. Era figurinha carimbada pelos arredores do estádio. Rondava o campo como quem queria – de graça mesmo, sem receber nada em troca – voltar a pisar ali. Toby, veja bem, era do tempo em que se jogava por amor.

O tempo, aliás, passava e o menino de Uraí, norte do estado, já tinha 53 anos. Novo pra vida, velho pra bola.

 

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Ontem, Toby foi dormir e não acordou mais. Morreu como morrem os homens de bem: pelo coração. Um ataque fulminante apareceu no meio da madrugada e Dorival não conseguiu driblar: ficou deitado na cama e saiu de maca pra nunca mais voltar.

E hoje, nós todos aqui, aturdidos, nos unimos numa saudade doída, dessas que chegam rápido demais, sem aviso prévio.

Pois vá, Toby. Vá e descanse porque o teu descanso é merecido. Tua torcida imensa fica aqui a lembrar dos teus feitos e das tuas graças.

E leve junto, meu amigo, o mais sincero abraço de apreço e benquerença. Que as pelejas do céu sejam fartas e graciosas. E que o teu balanço encante aos anjos mais ainda do que encantaram a nossa gente.

E se por acaso você encontrar por lá aquele operário do Major, o teu descobridor, queira dar também um abraço apertado, todo nosso. Diga que temos nele o arquiteto da nossa euforia, o desenhista da nossa fortuna. E que nutrimos por ele o máximo respeito e a mais completa gratidão – com espátula e massa corrida, aquele homem fez mais do que qualquer arquiteto.

Vá e descanse, Toby. Porque teu ofício foi cumprido com beleza e bravura.

 

Foto de capa: Gazeta do Povo / Blog Memória FC – André Pugliesi  |  Foto de apoio: Coritiba Foot Ball Club / Divulgação

 

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10 pronunciamentos sobre

Toby e o arquiteto da nossa euforia

  1. Estava na espera e sabia que o velho não ia deixar passar.
    Toby, entre tantos outros, ajudou a construir a história do Coritiba e é por ele, e tantos outros, que a torcida alviverde carrega consigo cada momento desta trajetória independente de ter visto ou não. O motorzinho do título se foi, mas deixou eternizada uma alegria indescritível no coração de cada torcedor Coxa-Branca.
    Vá em paz Toby querido, nós torcedores faremos o possível para colocar o Coritiba nos trilhos, como na época em que tu era o 10.

  2. Toby, ídolo tambpem no Operário Ferroviário: “No ano de 1983, o Coritiba contratou o técnico Osvaldo Brandão, que trouxe medalhões e veteranos e eu fui emprestado para o Operário de Ponta Grossa. Isto acabou sendo bom para mim por dois motivos: primeiro eu voltei a jogar de meia-esquerda, mais à frente, com a 10, e comecei a fazer gols. O clube em que fiz mais gols na carreira foi justamente no Operário. Foram 11 gols no campeonato daquele ano. ” http://www.parana-online.com.br/canal/lendas-vivas/news/715191/?noticia=TOBY+FOI+EMPRESTADO+AO+OPERARIO+E+SE+TORNOU+ARTILHEIRO

  3. Parabéns por esta cronica. Sensacional. Emocionante, principalmente p/ quem viveu aquela glória de 85, no maraca. E que reconhecimento ao cara que acenou o Toby ao Coxa. O Coxa da época soube ver isto como uma oportunidade que DEUS ofereceu a ele. Faz sentido. Abs.

  4. Velho, mais uma vez voce acerta na mosca, resgatando um idolo que, precocemente se foi, mas deixou saudades e lembrancas. Com que sensibilidade e maestria voce conta uma historia! Da gosto de ler! Continue assim.Abracos Benajmim

  5. Lindas palavras , realmente emocionante , não tive o prazer de vê-lo com a bola no pé , mas conheci ele pessoalmente e sei o quanto foi importante para maior glória do glorioso do Paraná !

    Tá explicada a alegria nos pés na noite de ontem !

  6. parabens velho jogou muito dorival mateus da costa me fez chorar naquela noite de julho e madrugada de agosto e voce fala como um grande poeta da bola parabens velho

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