Ternura interrompida

Nenhum gol pode ser mais bonito do que a homenagem que Calleri fez ao seu melhor amigo, morto na semana passada

calleri_fernando_nunes

 

Conheço Jonathan Calleri como a maioria de nós conhece os jogadores de futebol – pela televisão e nada mais. Não sei de onde ele vem nem para onde vai, do que gosta ou do que deixa de gostar. Mas o que eu conheço bem e compartilho com este moço é o laço visceral e definitivo de amizade que ele cultiva.

Desde que chegou ao São Paulo, no começo do ano, o argentino vive com os amigos a tiracolo. É visto em lanchonetes, cinemas, shoppings e outros redutos castos e ingênuos sempre acompanhado dos confrades da sua própria terra. E de todos os hermanos, as redes sociais mostram uma fraternidade especial entre ele e Sebastian Vladisauskas, um argentino miúdo, de corpo franzino e sorriso tímido.

Pois eis que uns dias atrás, Vladi inventou de comprar uma moto pequena, de baixa cilindrada, pra ir de um lado ao outro sem pegar trânsito e poupando combustível.

E aconteceu que numa dessas andanças, no sábado passado, o guri de 23 anos saiu de casa e nunca mais voltou – perdeu a vida numa esquina de Buenos Aires.

A notícia chegou a Calleri na concentração do São Paulo, minutos antes do confronto contra o Atlético-PR.

Transtornado, ele deixou a equipe, largou o futebol pra trás e pegou o primeiro avião para casa – ia pelejar o maior dos combates.

Ninguém sabe bem o que o guri viveu nessa ponte aérea, quanta lágrima ele chorou daqui até lá, nem quão duro foi carregar o caixão do melhor amigo num domingo de chuva.

O que sabemos é que ontem, ainda com o peito aberto, Calleri já estava de volta ao batente – mesmo profundamente triste, tinha que patrocinar a alegria da sua torcida. E assim, o argentino foi para campo enfrentar o Vitória. Trazia o olhar carregado de sangue e cólera, e vinha desesperado pra marcar um gol e lembrar de Vladi.

Pois eis que até o acaso, quase sempre sarcástico, se doeu pelo luto do moço e tratou de dar a oportunidade perfeita para a homenagem. Uma bola cruzada da esquerda lhe aterrissou mansa nos pés, à feição para o gol. E mal o guri tocou no couro e fuzilou as redes, saiu feito um touro de rodeio, bufando, coração carregado de raiva, embebido em ira e outros sentimentos duros. E enquanto a bola ainda girava em cima do barbante, ele já tinha arrancado a sua camisa e exibia, por baixo, uma outra camiseta cândida, pura, só com o retrato do Vladi. Era uma foto batida ali mesmo, naquele Morumbi que os dois aprenderam a amar juntos, umas semanas antes.

O avante berrava, com a boca espumando e os olhos vertendo água. Era um grito como o Grito, de Munch. Uma dor e uma saudade que só quem já teve uma amizade amputada sabe como dói.

Bem ali, ao lado, Fernando Nunes espiava a cena dantesca. E pela lente da sua câmera, registrava o momento em 4 retratos que doem na gente, que nos fazem sentir em brasa tudo o que guri sentiu naquele momento.

calleri_1

calleri_2

calleri_4

calleri_3

Ao homem que registrou esse momento, toda a minha gratidão.

E a você, Calleri, deixo a minha mais sublime condolência. Tua dor dói em mim. E por certo dói também em muitos outros homens que, como eu, têm nas amizades o lastro da vida.

Aos meus amigos, meus companheiros de futebol e arquibancada – os senhores sabem quem são –, peço que recebam este miúdo texto como uma pequena homenagem pela nossa amizade.

 

Fotos: Fernando Nunes / São Paulo F. C.

PartilheTweet about this on TwitterShare on Facebook

20 pronunciamentos sobre

Ternura interrompida

  1. Esse texto é um tiro no coração. Um tiro dado com uma bala de gelo. Faz com que ele pare de bater e fique em suspensão por alguns breves momentos, até o final da leitura. Aí o gelo se esvai e o coração volta a bater – sem se livrar totalmente da dor –, talvez um pouco mais lento e certamente mais consciente do valor das coisas que realmente importam na vida. Lindo texto, Velho. Parabéns.

  2. Belo texto!
    Quem já passou e sentiu algo assim sente o nó na garganta, o peito dolorido e acelerado…os olhos marejados…As mil palavras pensadas mas impossíveis de pronunciar pois a única coisa que sai é o urro…o grito dessa dor cortante saindo peito afora!
    Muitos tricolores ontem foram um pouco Calleri, eu fui um deles!
    Força Calleri!

  3. Soy el papa de Sebastian…Vladi, como le decian. Me emociona la nota, Calleri y los comentarios. Desde hoy tienen un “torcedor” del tricolor incondicional. Muchas gracias

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *