Sobre o encanto e a beleza

O Corinthians venceu o Once Caldas por 4 gols – três deles foram a mais pura poesia

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Naquele preciso momento em que a bola passa por entre as três traves, cruza a linha de cal e sacode as redes inimigas, todos nós dividimos uma única e singela preocupação: que o gol seja validado pelos homens do apito. O resto, pouco importa. Quem marcou, se foi de direita, de esquerda ou de cabeça, são meros pormenores, detalhes que veremos depois, porque agora só queremos explodir em cólera.

É isso, mas não é bem isso. Porque lá no fundo, em segredo, todos nós esperamos um pouco mais do gol. Que ele seja lindo, de preferência. E que ele possa, se for possível, humilhar o adversário. Se não for pedir muito, que ele termine com o guarda-redes estirado no chão, caído, derrotado, símbolo da fraqueza inimiga. Porque ainda que o golaço tenha o exato mesmo valor do gol feio, do gol de barriga, do gol contra, a beleza confere a ele um status raro, um prestígio quase sacro.

No dia seguinte, nas mesas de bar e rodas de escritório, o golaço vai ser lembrado, discutido, esmiuçado, enquanto o gol ordinário vai ser só contabilizado no placar.

Pois ontem, toda a plástica do Futebol, cada fundação responsável pela beleza do gol esteve em Itaquera, no embate entre Corinthians e Once Caldas. Ali, na espreita, só esperando para encantar.

E logo aos 30 segundos de jogo, quando os torcedores ainda escolhiam o sabor das suas pipocas gourmet, Emerson Sheik recebeu a bola do lado esquerdo do campo, na boca da área grande, fintou o beque, olhou para o gol e emendou um chute alado, leve feito pluma, contra a meta de Cuadrado. O couro, certeiro como as pedras lisas de Davi, viajou a área toda e encobriu o homem de luvas, que pulou só para não perder o hábito. Um tento raro, de beleza quase maquiavélica.

 

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Então, a formosura, que tem lá seus caprichos, se distraiu com a beleza da Arena e não viu quando Felipe subiu alto e testou contra as redes do Once Caldas, anotando o segundo tento.

Alguns minutos depois, tendo já visto tudo por ali, a beleza voltou suas atenções ao jogo outra vez e tramou o inolvidável: Sheik recebeu na esquerda, na intermediária inimiga, e feito Edilson, atiçou o ânimo inimigo com embaixadinhas lascivas. Depois, entregou a bola para Jádson, que ligou Elias, que devolveu e recebeu de novo na frente, ficando sozinho na grande área – era só ele, o arqueiro e um beque atrasado. O camisa 7, com a calma de um bispo, concluiu com rara felicidade.

Foi um gol cruel, desses que achincalham a zaga adversária, que provocam toda a discórdia no terreno inimigo. Por alguns segundos, a grande área do Once Caldas foi o picadeiro do Corinthians.

Então, quase no fim do espetáculo, quando pensávamos já ter visto gols bonitos por demais para um única madrugada, Renato Augusto bancou o Sócrates e, de calcanhar, passou para Fágner, que entrava solto pela grande área adversária. O lateral recebeu a bola e saiu na cara do arqueiro, que a essa hora já pensava se não teria sido melhor ter aceitado aquele outro emprego em Manizales, e soltou a mais cínica cavadinha, encobrindo Cuadrado e colocando a bola no fundo das redes com a delicadeza que uma mãe coloca o filho pra dormir.

As 35 mil almas em Itaquera estouraram num furor profundo, entendendo a vantagem mastodônitica assumida pelo Timão e, mais do que isso, agradecendo aos roteiristas do Futebol por escolherem aquela cancha, aquele dia, aquela camisa para pintar um quadro tão angelical como aquele.

Ontem, mais que os três pontos, o que valeu em Itaquera foram os três golaços do Corinthians.

 

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Foto de capa: Marcos Ribolli / globoesporte.com  |  Foto de apoio: Ricardo Nogueira / Folhapress

 

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