Sobre abraços e afagos

Os homens do apito andam querendo proibir a celebração mais bonita e genuína do Futebol

douglas_coutinho

 

Um abraço bem apertado, dizia minha vó, cura até resfriado brabo. É que ali, naquele miudinho intervalo entre um braço e outro, cabe a medida de dois mundos.

É um metro e meio de dimensão, um pouco mais se o freguês for alto, mas parece um bocado além disso. Porque a grandeza não tá no espaço nem na largura, mas no gesto. Naquele contato quente, de consideração e um pouco mais.

É por isso que cada vez mais os rapazes de cancha e bola andam indo para o povão buscar um afago assim, desses que refazem por completo o sujeito, que repõem tudo aquilo que eles perdem no campo, que fazem valer cada dia miserável na base, onde se come bucho e dorme no chão.

Pode ver: com essas arenas novas, que mataram quase tudo o que a gente gostava num campo, veio também essa graça, de misturar jogador e torcida, de aproximar quem se conhecia só pela televisão ou pela distância do binóculo.

E isso era pra ser bonito à beça. Era pra ser uma celebração do Futebol mais bela entre todas, atrás só do soco no ar do Pelé, que não conta porque tudo o que vem dele já nasce fora de qualquer discussão, sempre foi assim, sempre vai ser.

Mas o fato é que essa alegria toda, esse arrebatamento imenso acaba logo que o boleiro desce dos braços da sua gente e cai de novo no campo, voltando pra ver o adversário chutar a bola no globo central. É que os juízes – que entendem muito pouco de afago e carinho por serem o objeto de escárnio no meio da festa – não gostam muito desse entusiasmo cafona que nasce no cantinho da cancha. E assim que o cidadão regressa, a autoridade do jogo leva a mão no bolso e tira, com aquele meio sorriso torpe, um cartonado amarelo, abrasivo e sacana, censurando a felicidade e ceifando cada suspiro de euforia.

É a mais pura e arbitrária canalhice, vejam só. O jogador, que ainda está nas nuvens, logo lembra que é terrestre e que, aqui, só sorri demais quem tem alvará.

 

vasco_comemoracao

 

Suprimir o abraço mais santo do Futebol, entre adorado e adoradores, deveria ser crime inafiançável, previsto no código civil, posto que é o gesto que personifica o definhamento lento e triste disso tudo.

Notem a safadeza: o cidadão pode comemorar imitando a mais sangrenta chacina, apontando metralhadoras imaginárias para a torcida e reeditando a invasão à Normandia, se assim quiser, mas não pode, sob qualquer hipótese, ir até os aliados de arquibancada, abraçar e ser abraçado, ofertar e receber ofertas, porque em alguma sala com fumaça densa de Cohibas um cartola decretou que seria assim. E ponto final.

Acontece que só o jogador sabe o que ele está indo procurar naqueles abraços. Os cartolas não fazem ideia.

E nós, que não somos uma coisa nem outra, podemos só imaginar. E eu indago quanta frustração o atleta não deixa ali, nos braços daquela gente, quão mais leve ele não levanta depois de mil mãos correndo pela cabeça, duas mil bocas gritando que ele é santo e que está remido do que quer que seja?

Domingo, agora, Douglas Coutinho, avante do Atlético-PR, marcou um gol contra o Atlético das Minas Gerais. E, em êxtase, foi até o povo no concreto e abraçou e foi abraçado em profusão, cena linda, da mais imaculada alegria. Ali, aquela torcida toda perdoava Coutinho pelos últimos jogos, pela temporada fracassada. Eles assinavam a sua carta de alforria, o liberavam das transgressões, o remiam dos seus pecados. E ele sentia todo aquele perdão, e sentia tanto que até chorava, e chorava tanto que até colocava a camisa no rosto pra guardar pra si próprio aquela torcedura feia que a cara da gente faz quando chora sem medida.

E saindo dali, daquela beatificação pública, Coutinho voltou em paz para a cancha, de alma lavada. E mal pisou na grama e já viu subir diante de si a tarja amarela, estridente, que até não incomoda pelo que faz ao jogo, posto que avante nenhum deixa de jogar mais ou menos porque está pendurado, mas que maltrata pela perversidade de aparecer no momento do êxtase só pra fazer lembrar que nesse Futebol novo que a gente joga não cabe ser feliz por muito tempo.

 

Foto de capa: Divulgação / Site oficial do Atlético-PR  |  Foto de apoio: Marcelo Sadio / Vasco da Gama

 

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9 pronunciamentos sobre

Sobre abraços e afagos

  1. Frequente estádios de futebol a 49 anos para acompanhar o meu querido FURACÃO e confesso que poucas vezes vi uma péssima arbitragem como a de domingo passado, quando esse tal de Thiago não sei do que, veio preparado para operar o Atlético Paranaense. Esta arbitragem merece ser analisada com profunda isenção e punir este péssimo árbitro com a exclusão definitivamente dos campos de futebol, pois ele prestou uma afronta ao futebol brasileiro. Ficou muito claro durante toda a partida a sua profunda desonestidade em todas as atitudes tomadas.

  2. Moro em São Paulo, e sou furacão doente. Vi pela televisão o gol, e fiquei emocionado com a beleza da cena, como todo mundo deve ter ficado. A reação do juiz além de ignorante é burra, se futebol é espetáculo, ele está matando o espetáculo. Burra talvez seja elogio, a expulsão do Walter revela talvez a velha artimanha de parar quem não pertence ao grupelho que manda no futebol brasileiro. O 7X1 tem razões profundas. Esse árbitro por outro lado não passa de um egozão ambulante, um ego bem sujo, bem medíocre.

  3. Ótimo texto. Ao meu ver, enquanto a CBF estiver dominando nosso campeonato Brasileiro, teremos esse tipo situação e muitas outras bizzarisses para presenciar ainda… Raça Furacão!

  4. Momento único, não apenas pela emoção e lágrimas de Coutinho ao comemorar o gol, mas pelo êxtase de um abraço da torcida, especialmente de duas senhoras atleticanas na primeira fila que por sorte estavam ali, no lugar certo, onde o ídolo veio ao seu encontro. O vídeo do gol mostra claramente a emoção dessas torcedoras, que foram sem duvidas, representadas por toda a nação rubro-negra… A atitude do juiz não não diminui a força dessa imagem.

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