Só se vê bem com o coração

Sem transmissão de TV, o povão acompanhou uma vitória épica do Coritiba pelo canal primordial do futebol: o radinho de pilha

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O essencial é invisível aos olhos, disse certa feita Saint-Exupéry. E tem plena razão o poetinha – algumas coisas só podem ser enxergadas dessa forma, com as vistas bem cerradas e o coração atento.

Ontem, foi assim.

Belgrano e Coritiba travavam uma imensa peleja em Córdoba. Em 111 anos de história, era a primeira vez que o conjunto argentino entrava numa queda de braço internacional e a terra da prata estava toda eriçada, vivendo dias da mais absoluta euforia. No jogo de ida, 5 mil hinchas invadiram Curitiba com aviões fretados, um exército de ônibus e carros e até um táxi com quatro amigos, sem falar nos néscios que, porventura, tenham vindo em mulas, jumentos e outros meios de transporte de conforto duvidoso.

Pelo lado tupiniquim, o Coritiba também navegava em mares incomuns – não era a primeira vez do time no estrangeiro, mas é justo dizer que o passaporte do clube não chega a ser repleto de carimbos de alfândega.

Ainda assim, mesmo o confronto tendo o peso de uma vida para os dois times, nenhuma televisão se interessou em transmitir a miúda guerra para o Brasil. E ficou acertado, então, que tudo se daria no escuro, no desespero do radinho de pilha.

Seria como nos bons tempos: a imaginação ditaria a febre do corpo e toda a vida correria pelas tênues cordas vocais do locutor. Uma multidão brasileira confiaria a peleja inteira aos arroubos de um único cidadão e o que ele dissesse seria acatado como a mais plena verdade para dezenas de milhares de coxas-brancas.

E assim, banhado em aflição, começou o jogo pelos lado de cá. E tudo o que se ouvia sair da caixa difusora era um coro estrondoso de uma multidão. E era como se os argentinos colocassem os pulmões do país inteiro a serviço do Belgrano, empurrando os onze soldados com um vigor incessante.

E eis que aos 29 minutos de embate, ouviu-se um estampido ainda mais colossal, como o do estouro de uma manada de búfalos, o canto uníssono de milhares de vozes febris e veio, então, a confirmação do locutor brasileiro: o Belgrano havia marcado o gol, oriundo de um escanteio cobrado de três dedos e jogada concluída para o barbante numa bicicleta.

A viola estava em cacos para o Coritiba, que já havia perdido o primeiro no Alto da Glória por 2 a 1. Seria preciso marcar dois ou mais pra sair do Mario Kempes com um sorriso na cara.

 

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Pois eis que ainda no primeiro tempo o radinho contou que Iago, o homem que costuma chutar de longe pra romper as redes, bateu de perto, com a cabeça, e sacudiu o gol argentino. Estava anotada a igualdade e o povo daqui já se dava ao direito irrestrito de sonhar com a classificação.

Veio o segundo tempo e veio, com ele, mais uma aflição desmedida, aquele receio que todos nós temos em caminhar no escuro, tateando paredes à procura de um interruptor que não existe.

E eis, então, que aquele som ensurdecedor em castelhano arrefeceu abruptamente. E o radinho, antes todo euforia, se calou. E ouviu-se só o grito solitário daquele locutor na cabine do estádio. Aquele grito aberto, inconfundível, rasgado de uma emoção estupenda: Nery Bareiro, zagueiro e capitão do Coritiba, havia testado firme contra a bola e vazado a meta do Belgrano. Era a virada, a doce e deleitosa virada.

O cronômetro marcava 20 do segundo tempo e o Coritiba tinha mais 25 minutos pra segurar o Belgrano, que vinha pra cima com o ímpeto de um marido traído.

Pois não só o escrete de Paulo César Carpegiani brecou o adversário com a grandeza de um muro de arrimo como ainda tratou de fustigar o gol inimigo. Dos pés de Carlinhos quase saiu o terceiro, que daria números finais ao embate. Mas o gol não veio e ao cabo do tempo regulamentar, o Coxa venceu los Piratas por dois a um e, dada a igualdade dos placares dos dois jogos, o juiz mandou que fossem cobradas penalidades diretas.

Foi quando o radinho deu a notícia fatal: o Coritiba estava vestindo a jogadeira, camisa com listras verticais que trouxe o título de 1985, também nos pênaltis. E a esperança, que tirava uma siesta violenta até o começo do jogo, foi acordando no coração de cada torcedor, queimando feito brasa.

Faltando duas cobranças para o Belgrano e uma para o Coritiba, o time do Paraná perdia por um gol de diferença. Ou, trocando em miúdos, era preciso que os argentinos perdessem ambos e os brasileiros convertessem o deles.

Mas eis que os pênaltis, a mais contumaz fábrica de vilões, também produzem heróis. E Wilson, criticado pela derrota para o Palmeiras na semana passada, foi imenso: agarrou o primeiro, cobrou e converteu o segundo e ainda voltou para a meta para agarrar o terceiro.

Foi talvez o mais homérico minuto de vida do arqueiro, que gabaritou três lances seguidos e tatuou o nome na história do time paranaense.

O radinho guardava um silêncio sepulcral do lado de lá. Só berrava o locutor brasileiro, sozinho num estádio lotado com 50 mil almas argentinas.

Do lado de cá, homens e mulheres voltavam a ser crianças e, ainda em cólera, no êxtase do inimaginável, sem enxergar nada, com a televisão desligada e todos os poros abertos, entendiam que só se vê bem com os olhos do coração.

 

Foto de capa: Trivela  |  Foto de apoio: Diego Lima, AFP

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9 pronunciamentos sobre

Só se vê bem com o coração

  1. Como sempre capaz de me emocionar às lágrimas esse Velho. Futebol no Brasil tem sido regado a sangue, suor, lágrimas, muitas lágrimas. Risos, esperanças,tristezas,decepções. Mas sempre ESPETACULAR. Parabéns aos heróicos coxas branca.

  2. Ah, Velho amigo! Há quanto tempo não papeava contigo.

    Confesso que a modernidade me fez escrava: entre o rádio e a internet do tempo regulamentar, acompanhei os pênaltis ‘ ao vivo ‘, quando a Fox abriu a transmissão.

    Mas foi tão emocionante e doloroso quanto na sua descrição.

    Beijo!

  3. Não sou tão novo assim e confesso que já acompanhei nosso Coxa por diversas vezes em ondas médias. Com a tecnologia as coisas mudam, inclusive eu, mas nem tanto. Cético após a derrota tinha quase certeza que não acompanharia o jogo, principalmente pela derrota no primeiro jogo. Porém, após ver mulher e filho assistindo pelo celular, me rendi. No gol dos piratas quase desisti. No empate grudei no computador e vibrei com o segundo gol. Ocorre que ao perdermos o primeiro pênalti saí da sala. Sei que após o gol do Wilson e na sequência sua defesa, achava que o Belgrano ainda tinha cobrança a fazer, tal atordoamento que enfrentava. A ficha caiu ao ver o grupo pulando em cima do principal ator da noite!

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