Saiu. E não disse se volta

O Vasco da Gama que o Brasil todo conhece já não é mais o mesmo. A pergunta é: será que ele volta a ser?

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POR FREUD IRÔNICO

Dos primeiros 25 anos de minha vida, 23 foram passados às margens do Maracanã. Da esquina entre as ruas São Francisco Xavier e Professor Manuel de Abreu, na beira do rio Joana, assisti festa de todas as cores e torcidas. E como gritei, celebrei, vivenciei cada festa, cada título, cada troféu levantando pelo Vasco.

Ali, embaixo do prédio 467, há um boteco, desses botequins que se encontram aos borbotões pelo Rio. E era lá que, invariavelmente, eu encontrava meu avô, quando retornava ao lar. Eu passava em direção à casa e olhava para dentro do bar para ver se o encontrava. Ele, com a visão deficitária, escutava a minha voz e, ato contínuo, oferecia-me um refrigerante e, quando a idade permitiu, um copo de sua cerveja para um brinde tão simples quanto amoroso. Assim foram incontáveis vezes.

E neste sábado, a caminho do estádio, sozinho, optei por esse trajeto só para olhar pra dentro do boteco, em uma esperança natimorta de encontrar o velho sentando em um desses bancos redondos que giram em frente ao balcão.

juiz

 

Mas ele não estava. E a saudade doeu. No mesmo tom que apertou o peito ao ver o time que ostentava a Cruz de Malta no Maraca. Tal e qual o meu avô, tudo parecia mais ou menos como nas minhas lembranças, mas o Vasco, aquele que me convidava ao riso, ao êxtase, à emoção, esse não estava mais lá. Sobrou uma memória, uma lembrança feliz resumida em uma camisa que de tão vilipendiada não consegue mais se impor sozinha.

A derrota para o Galo era tão esperada quanto o vazio que o velho me deixou. Mas a dor é insensível a aviso prévio. Ela lateja cruelmente em cada passe arriscado, nas bolas perdidas, nas chances de gol mal construídas, na expectativa de uma virada que parece nunca chegar. O Vasco hoje é um grande amigo que vemos morrer lentamente, pouco a pouco, impotentes diante de sua agonia, ironicamente aguçada por aqueles que prometeram salvá-lo.

O time que escolhi para amar saiu e virou saudade. E o pior, não sei se volta.

 

Fotos: Antonio Scorza / Agência O Globo

 

 

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2 pronunciamentos sobre

Saiu. E não disse se volta

  1. Me convenço dizendo que é só uma fase. E todo jogo rôo as unhas e coloco o coração pela boca… Aqui de longe, às vezes acompanhando só pelo tt, pode parecer que dói menos, mas a sensação é a mesma. A doença daquele ente querido que a gente torce pra não ser terminal. Mas que a cada jogo parece mais real.

  2. Quando o futebol bu$ine$$ é quem manda e o futebol arte agoniza, aqueles que vivem de arte agonizam junto. Vide o Vasco, o Botafogo e até mesmo a seleção.

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