Quando muito não é o bastante

Milton Mendes transformou um candidato seríssimo ao rebaixamento em um time que pode ir longe. Mas para o Atlético-PR não foi o suficiente

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O sorriso é tão largo que parece querer rasgar a boca. Os dentes estão sempre à mostra, como se estivessem numa vitrine. O abraço é forte, como quem tem saudade até de quem nunca abraçou.

Basta estar perto de Milton Mendes para entender, de pronto, que trata-se, se não do inventor, certamente de um dos fundadores do carisma e da simpatia, estas instituições que abrasam e acalentam os corações da gente.

Foi assim, com esse jeito bonachão, de pai de todos e amigo de quem nunca teve colo, que o treinador chegou à Arena da Baixada, no início desse ano. Mas sorriso, a gente sabe, não conquista atleticano.

E então, o treinador sofreu as mazelas do preconceito de quem ainda é novo na prancheta.

Vinha da Ferroviária, de São Paulo, tinha passado antes pelo Paraná Clube e outros escretes miúdos de Portugal. Nada que o avalizasse para uma temporada à frente do Atlético-PR, de torcida exigente e sonhos altos.

Foi, contudo, só ele começar a trabalhar que os apupos foram se dissolvendo feito pó ao vento e, quando ele viu, quando todos nós vimos, na verdade, Mendes já era uma unanimidade febril no Paraná.

E tem nexo: o cidadão evitou o rebaixamento à segundona do Paranaense e, logo nas 3 primeiras rodadas do Brasileirão, já havia vencido nada menos do que Internacional e Atlético-MG, então fortes candidatos ao título, um deles com três cintada no lombo fora o ensaio do baile.

Depois, vieram ainda as redes sociais, a ternura no trato com as pessoas, o carinho com os estranhos, as visitas à sede da torcida organizada e, rápido como um contragolpe bem armado, Milton Mendes já era o MM, dono de todo e cada coração atleticano por essas bandas.

Um turno se passou e aquele mesmo time, que havia brigado pela vida no Torneio da Morte, de repente estava nos calcanhares do G4 do Nacionalzão, sonhando com um vaguinha no torneio continental. Mendes fazia o mais recôndito milagre: transformava um onze mediano em um time competitivo, em um grupo fechado e comprometido com cada peleja.

Veio, então, a vitória sobre o Galo no Horto, quiçá o terreno mais difícil de conquistar nesse Brasilzão todo. E veio, aí sim, a confiança da torcida e, junto com ela, a impressão de que era dado sonhar alto e que, de certa forma, disputar La Copa era uma espécie de obrigação moral em um torneio nivelado por baixo como o nosso.

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Mendes: com o ídolo do time na sede da torcida organizada, fazendo o gesto do povão, ao lado da caveira: nada foi o bastante

Aos poucos, a torcida foi sendo enebriado pelo perfume doce das vitórias e pela tábua fácil de escalar. E foi também, embriagada pela champagne dos triunfantes, esquecendo que tudo aquilo era, na verdade, um miúdo milagre, e que o time era limitado. A maquiagem canalha, que esconde o óbvio e vive de contar as mais sórdidas mentiras, foi se apoderando do coração atleticano, que já assobiava tranquilo, pensando onde colocaria a taça da Copa Sul-Americana no museu das suas conquistas, tendo em vista que o caminho não trazia nenhum escrete de grande peso.

Mas eis que veio, no meio da primavera do contentamento, um longo e tenebroso inverno, regado de desprazer e soluços doídos, de choro e ranger de dentes.

Foram quatro derrotas seguidas. E um futebol insalubre, quase covarde, começou a brotar nas canchas, sufocando o toque de bola e asfixiando a técnica.

Em qualquer time do Brasil, teríamos uma crise. E apenas uma crise. Mas no Atlético-PR, não. Porque aqui, nas barbas de Mário Celso Petraglia, onde o temperamento oscila mais que o dólar, crise é negócio que demora demais pra estourar – ele precisa de soluções mais ligeiras e graúdas, que sacudam todas as estruturas do Joaquim Américo, e não só a casamata. E assim, vítima da mão firme de quem tem as rédeas da Baixada, Milton Mendes foi do paraíso ao Hades com a mesma velocidade que foi do anonimato à prateleira de treinadores celebrados.

De supetão, o mágico de outrora, o homem que fazia chover na Cantareira se preciso fosse, virou réu da crise, o causador da seca.

Porque se o Furação não anda honrando o apelido nos campos, varrendo adversários e imprimindo medo, é preciso que ele consuma outras coisas pelo caminho. E que cause estragos e que destelhe vivendas e bancos de reserva, e que fragmente laços apertados por gente séria.

De todos os escretes desse nosso país, não há um só mais liso e sinuoso do que o Atlético Paranaense, que tem nas salas da sua cúpula não mármore nem granitos, mas uma lúgubre areia movediça, que começa a sugar todo e qualquer cidadão que pise nela, no momento em que ele pisa e joga peso, seja um vitorioso ou um fracassado. O Atlético-PR perde Milton Mendes, o homem sem culpa. E pede que venha, pois, o próximo: o saibro da Baixada tem pressa de consumir e fome de dragar um par de pés incautos.

O VELÓRIO DO IMPOSSÍVEL: RELEMBRE A CLASSIFICAÇÃO ESPETACULAR DO FURACÃO À LIBERTADORES DA AMÉRICA

Foto de capa: Albari Rosa / Gazeta do Povo

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4 pronunciamentos sobre

Quando muito não é o bastante

  1. Milton Mendes, o homem que salvou a ferroviária da minha gloriosa Araraquara, tive o prazer de acompanhar o acesso e celebrar essa festa presa na garganta por 19 anos. Uma pena que nesse nosso Brasil diretorias destronam tecnicos para justificar campanhas e esconder o elenco mediano outrora marketeado como favorito, espero que volte para a Morada do Sol e conduza minha Ferrinha no estadual do ano que vem. Força Miltão.

  2. Ainda me encontro depressivo por essa demissão. Gostava do MM no CAP.
    Mais uma vez a boleirada mostrou que quando se empenham pra derrubar um técnico, não a quem segure.
    Sorte ao MM, e parabéns VelhoCronista pelo texto.
    SRN.

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