Quando é dia de Maracanã

Depois de meio ano entregue às Olimpíadas, o mais colossal estádio de futebol volta para o arrebatamento do povão

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Hoje não deveria ter rodada completa. Deveria ter só a reabertura do Maracanã. Setenta mil desvairados a gritar, pular e sacudir o Maracanã.

Não deveria haver ingressos, nem bilheterias, nem cambistas, só portões – e portões abertos, com todos os poros escancarados para o povo.

Seria cordial que fosse assim: todos os outros jogos da rodada cancelados em respeito à volta do estádio Mário Filho. Ou, se não cancelados, que fossem todos realocados para o próprio Maracanã, numa imensa rodada décupla, começando de manhã e terminando no meio da madrugada seguinte, entre insones e bêbados. E que todos os outros estádios fechassem seus portões numa reverência muda, num gesto de subordinação à majestade. E que toda a gente, do Rio e de fora, pudesse marchar em romaria em direção à avenida Castelo Branco, e que cada uma levasse sua bandeira, sua flâmula, sua camisa, seus enfeites para adornar o mais sagrado campo de futebol do mundo.

Depois de quase meio ano servindo ao Comitê Olímpico Internacional, a cancha fundamental vai voltar, enfim, para o povo. E vai regressar – vejam os senhores a ventura disso! – sediando o choque entre as duas maiores torcidas do país.

Melhor seria que fosse um Fla-Flu, um Vasco vs Botafogo, um clássico visceral da Cidade Maravilhosa. Mas quis a tabela, essa compositora de destinos, que jogassem Flamengo vs Corinthians. E quis também que o dérbi guardasse fundamental importância, com os cariocas carcomendo os calcanhares do líder e correndo atrás da taça enquanto os paulistas, ainda aprendendo a viver sem Tite, procuram ficar na zona alta da tábua, onde o ar é rarefeito e o prêmio é uma vaga na Copa Libertadores da América.

Mas a verdade é uma só: mesmo sendo o duelo de terrível importância, e podendo decidir o fado dos dois escretes, hoje nada é maior do que o Maracanã. Porque de tanto ser palco do magnífico, de tanto sediar o maravilhoso, o estádio virou um colosso por vezes maior até que o próprio espetáculo.

E hoje, meus caros, nada é maior do que a volta do Maracanã. Nem Flamengo, nem Corinthians. Hoje, convém só curtir o estádio, mirar o estufar poético de seus véus de noiva, lembrar das crônicas de Nelson Rodrigues, fruir das suas rampas imensas, marcar fotos no Bellini, ver os pés de Pelé moldados no cimento da sua calçada. Hoje, interessa acabarmos com a tristeza, um pouquinho a cada minuto, parcelando a saudade em 90 miúdas vezes no carnê das nossas lembranças.

Foi bom ver os clubes do Rio perambulando pelo país, se apresentando a toda gente, arrancando suspiros em terras estrangeiras. Foi bom deitar no prelo do Mondrianzão de Cariacica, passear por Volta Redonda, revisitar o Giulite Coutinho e rever o próprio placar agora em outro concreto, mas agora é hora de voltar pra casa, de ser o destino de domingo, de enfeitar a vida de todo carioca.

Hoje é de Maracanã. E não é dia de mais nada.

 

RELEMBRE A VOLTA DO VÉU DE NOIVA AO MARACANÃ

 

Foto de capa: Maracanã, divulgação

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