Quando dez dias são como dez anos

Em pouco mais de uma semana, Coritiba e Flamengo se enfrentaram duas vezes. Mas parece ter havido uma década entre cada jogo

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Quando o Coritiba entrou em campo contra o Flamengo, na semana passada, pelo Campeonato Brasileiro, o calendário marcava 17 de agosto de 2014. Mas quem esteve ontem no estádio Major Antônio Couto Pereira duvida com alguma perplexidade – pela diferença abissal de postura do time verde, aquele embate foi 10 anos atrás, e não 10 dias. Parece impossível, obra de Kafka, que aquele mesmo onze, malemolente e insípido, tenha adotado uma estatura tão distinta em tão pouco tempo.

Ora, tente mudar um hábito, uma conduta, um costume e você vai ver que 10 dias não servem nem para amaciar o sapato novo, quem dirá, então, ser o suficiente para cambiar o espírito e o porte de um time inteiro, do massagista ao ponta-esquerda, imponde-lhe a mais obstinada vontade de vencer e fazendo brotar pelas mangas o seu caráter.

Pois foi exatamente o que aconteceu agora com o Coritiba, depois da troca do comando técnico. Marquinhos Santos, em comparação a Celso Roth, foi um pêndulo girado diante dos olhos dos jogadores, fazendo com que cada um deles descesse daquele sono pesado que havia lhe surrupiado o mínimo desejo de jogar Futebol.

Voltemos 10 dias – ou dez anos – no tempo. Naquela ocasião, o Flamengo jogou com todo o conforto no Couto Pereira. Foi o seu Maracanã. Os rubro-negros chegaram aqui rosnando, inebriados pelo perfume de Vanderlei Luxemburgo, famoso por alforriar a fome de bola em seus jogadores. Na metade branca da cancha, contudo, o que se via era um comportamento indolente, regado a preguiça e lombeira: o onze de Roth parecia sempre ter acabo de sair de uma feijoada completa no Hora Extra. Nem mesmo a comemoração acintosa de Éverton depois do gol da vitória carioca, com dedo em riste, ordenando o silêncio nas arquibancadas, foi o bastante para despertar a libido verde e branca. Todos, no campo, aceitavam aquela derrota como uma sentença transcendente, contra a qual não compensa levantar o pé para uma dividida.

O Coritiba de Celso Roth jogava sem élan, sem desejo, sem índole. O que, para uma torcida que carrega a alcunha de alma guerreira é o mais hediondo crime. Faltava ao escrete aquilo que sempre sobrepujou na torcida: alma.

 

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Zé Eduardo marcou um, de pênalti. E foi o símbolo da raça coritibana.

 

Acontece que ontem, uma década depois, foi diferente. O Coritiba já brotou do túnel número 1 do Major obstinado, com desejo de encarar a camisa pesada do Flamengo com uma dose cavalar de dignidade.

Os grunhidos, agora, estavam do lado verde e branco. A cada pé-de-ferro vencido pelo Coxa, os combatentes em campo comemoravam. Um mero lateral a favor era motivo de regozijo nas arquibancadas, que acompanhavam o furor no campo e, mesmo não cheias, estouravam num carnaval constante e sonoro.

O Flamengo, distraído, não viu que havia passado uma década inteira entre o jogo da semana passada este e, assim, foi sufocado por um time envolvente, com toques rápidos e um naco do coração preso entre a caneleira e a canela. Se no primeiro tempo o tento paranaense não saiu por conta do travessão, nos últimos 45 minutos a rede carioca sacudiu três vezes. E poderia ter sido mais.

O Coritiba saiu de campo com uma vantagem perniciosa para o jogo de volta, marcado para o teatro maior do Futebol, onde o Flamengo cresce inapelavelmente alvoroçado pela magnética, que não conhece o silêncio e não mede esforço pra virar o mais funesto dos placares.

Mas ainda mais fundamental do que esse saldo desvairado é perceber que o Coxa, enfim, voltou a ter camisa, a jogar com aquele escudo cravado no peito, cingido por doze esmeraldas.

Há, sim, esperança. E, como sempre, ela é verde.

 

Fotos: Hugo Harada / Gazeta do Povo

 

LEIA A CRÔNICA DE CORITIBA VS FLAMENGO, PELO BRASILEIRÃO 2014

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