Pelas curvas do Branco

Vinte e dois anos depois, aquela bola chutada pelo camisa 6 da Seleção ainda parece um milagre

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POR FREUD IRÔNICO

Aos 14 anos eu não havia tido a oportunidade de ver o carrossel holandês de 1974. O time que encantou o mundo com a última inovação genuína do futebol mundial era, para mim, apenas uma história das injustiças da bola que meu avô contava por aquela seleção nunca ter levantado um caneco.

Por isso, naquele 9 de julho de 1994, a quarta-de-final diante da Holanda era um jogo que seria difícil pelos atletas que o adversário apresentava nos cromos do meu álbum de figurinhas. Koeman, Rijkaard, Overmars e, principalmente, Bergkamp eram nomes de peso. Mas que eu jamais fazia ideia do que viria pela frente.

Lembro que, à época, muito se questionou a entrada do lateral Branco para substituir Leonardo, suspenso por cartão vermelho. Pedia-se o deslocamento de Mazinho para a ala e a entrada de Raí pelo meio porque comentava-se, entredentes, que Branco estava velho. Em suma, que o gaúcho, no gramado, não dava mais no couro.

Veio o jogo e, depois de colocar-se em vantagem por dois tentos, a seleção canarinho decidiu me ensinar que, por todo o sempre, camisa laranja do outro lado é sinal de aflição.

O canto de vitória virara pranto e ranger de dentes. Aos brasileiros, no dicionário holandês, o verbete comemoração só aparece após a expressão apito final. E eu aprendi isso ali, ao vivo, na angústia da juventude púbere.

O que eu, imberbe, não havia aprendido, porém, é que o futebol reverencia a bola porque ela, tal qual o mundo, é redonda e dá voltas que nem o mais criativo cronista ousaria grafar.

Com toda a malandragem de quem enjeita as críticas que lhe chegam, Branco escondeu do árbitro uma falta que fez para cavar outra, a seu favor, três passos adiante. E com uma bomba que impôs silêncio perpétuo a seus detratores, fez gritar uma nação inteira.

O futebol mostrava mais uma vez que implode, como ninguém, a ponte que separa o descrédito do prestígio. E fez Branco assinar seu nome em um dos jogos mais incríveis da história das Copas.

Até Romário, herói do Tetra e íntimo do gol como poucos, sabia que aquele prélio era de Branco. Coice dado, envergou seu corpo ao limite de sua flexibilidade para registrar que o verdadeiro artilheiro promove o encontro entre as redes e a bola até mesmo sem encostar nela.

E ainda hoje, 22 anos depois, eu não me permito esquecer aquele 9 de julho. Ano a ano, repito no silêncio de minha mente inquieta um mudo obrigado por Branco nunca ter deixado aquela tarde terminar.

 

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2 pronunciamentos sobre

Pelas curvas do Branco

  1. Me lembro desse lance na hora do jogo.

    Todo mundo realmente achou que o Bebeto matou o jogo no 2×0 – mas o empate da Oranje deixou o clima bem tenso.

    Daí, aquela falta. Na hora, não me pareceu.

    Mas numa atitude rara e elogiável no meio, o Branco admitiu tempos depois que a cavou.

    Isso porque sempre que o erro de arbitragem nos favorece, tendemos a sorrir amarelo e falar abobrinhas como “não temos nada com isso”, “chora mais”…

    Daí na Libertadores nosso time é garfado fora de casa e berramos contra a Conmebol, “a CBF que não faz nada”, etc.

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