Os corcundas se endireitam

Apoiada em muletas, a Seleção Brasileira voltou a crescer e já lembra aquele colosso pelo qual todos nos apaixonamos

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Entre umas preleções sobre a mulher de trinta anos e uns preceitos sobre a burguesia francesa, Balzac nos ensinou um bocado mais. Disse que quando todo mundo é corcunda, o belo porte se torna a monstruosidade.

Pois o Brasil esteve por um largo tempo vivendo com corcovas nas costas, dobrado e feio, apoiado em muletas, desfilando arcado por uma terra de corcundas.

Éramos mais um na multidão. Um time como qualquer outro, cheio de pecados não confessados. Do massagista ao ponta esquerda, um conjunto opaco, um onze como a carranca do técnico. Éramos o futebol de mau humor.

Ver o Brasil jogar era animador como uma ida ao Sétimo Tabelionato de Notas pedir carimbo em papel oficial. Até Neymar, que desfilava feito cisne pelos campos da Europa, tinha jornadas burocráticas com a camisa amarela.

Pra piorar a desdita, do lado de fora de cancha os homens da CBF manchavam ainda mais os assuntos do prelo, acumulando vergonhas e trocando as páginas esportivas pelos cadernos policiais.

Uma coisa somada a outra e o povão, antes a última fortaleza, foi se desligando da Seleção e deixando de amar, trocando os jogos na TV por programas de culinária que ensinam a fazer lasanha de abobrinha.

E veio o vexame inapelável da Copa do Mundo. E veio a Copa América e veio outra desclassificação. E outra Copa América, outro achincalhe público – caímos na primeira fase em um grupo com Equador, Haiti e Peru.

Mas entre um erro e outro, os dirigentes da Confederação Brasileira de Futebol acertaram uma na ferradura: trouxeram Tite para a casamata. Era a decisão óbvia, que o povão clamava, o técnico que sabia melhor montar times do lado de cá do Atlântico.

Logo no primeiro jogo, contra a Venezuela, lá, a Seleção Canarinho venceu por dois a zero.

Depois, nasceu a primeira goleada: 5 a 0 contra a Bolívia. E veio a Colômbia, o primeiro embate de peso, vencido por dois a um. E veio o Equador: um novo triunfo. E aos poucos, nós, os corcundas, fomos largando as muletas e levantando do nosso padecimento, endireitando a coluna, jogando bonito e lotando estádio. Em quatro jogos, quatro vitorias. E cada jogo das Eliminatórias, de repente, parecia amistoso, como nos velhos tempos.

Era, então, hora do confronto cabal. Enfrentaríamos a Argentina, nosso inimigo mais íntimo e visceral, dentro do Mineirão, vivenda de todos os nossos fantasmas recentes. Aquele inimigo, naquela cancha, ou nos devolveria à vida de cobra, rastejando pelo chão de cabeça baixa, ou nos faria erguer por completo.

 

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E foi, meus caros, o mais achincalhado passeio. Vencemos o maior clássico do mundo como quem vence uma pelada de moços no torrão do Poty. Fizemos três e só não fizemos mais porque nos faltou a coragem de torcer a faca no corpo ainda quente do defunto. Firmino perdeu o quarto, Paulinho jogou fora o quinto e, juntos, nossos soldados combinaram de guardar a dignidade argentina numa redoma de vidro.

Messi, do lado de lá, abriu o jogo escancarando o sorriso da hiena, com dois chapéus em 5 minutos, fazendo Fernandinho, mesmo depois da vitória, sonhar em castelhano e pensando em sombrero, mas depois disso, cavou um buraco no bolso do Miranda e deitou por ali, no quentinho, aparando a barba ruiva e pensando no fisco espanhol.

Ora, a Argentina, eu bem sei, faz uma Eliminatória pífia e isso, dirão, tira o mérito da nossa conquista. Mas não é bem assim que a banda toca. Em um clássico desse calibre, as posições são sumariamente ignoradas e o que resta é apetite e pavor. Eles tinham Messi, Di Maria, Agüero, Higuaín e outros nomes de quilate inquestionável e, se não fôssemos ligeiros, seríamos comidos vivos pelo time de Bauza, simplesmente porque clássico é assim.

Neymar, Coutinho e companhia jogaram a fina bola e construíram, mãos e pés, um gigante reformado, ainda com as marcas das emendas, mas colosso esbelto, de belo porte que assusta pela monstruosidade da sua beleza.

Nos falta muito ainda, mas não se nega o óbvio: o Brasil voltou a encantar.

 

Foto de capa: Alexandre Gunzashe / Estado de Minas / DA Press  |  Foto de apoio: Rodrigo Clemente / Estado de Minas / DA Press

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Um pronunciamento sobre

Os corcundas se endireitam

  1. Polidas palavras Velho, como sempre extrai da alma o que a carcaça tem sede, o nosso futebol.

    Um adendo apenas, Fernandinho – hibrido guerreiro que logo no inicio amarelado, cerceando seu impeto voraz – jogou de mochila, e dentro o Messi ficou, empacotado e envergonhado, nesta peleja não vi o Hermano sequer respirar, se não por aparelhos.

    Saudações nobre confrade do Futebol.

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