Os brucutus também amam

No fundo, todo volante sonha em ter a carta de alforria dessa vida grosseira. Souza teve a dele

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Ninguém nasce volante nessa vida. Pode ir por aí, vagando de escolinha em escolinha, do Aterro do Flamengo aos campinhos batidos da Wenceslau Braz, e você não vai encontrar um único menino decidido a ser volante.

Vai achar incontáveis meias e vai tropeçar em inúmeros zagueiros, mas não vai achar o cidadão que é as duas coisas ao mesmo tempo.

Porque ser volante é, na essência, assinar a carta da infâmia, assumir um compromisso infausto com o anonimato. É saber que o grito nas arquibancadas só vêm quando errar passe, que os autógrafos só serão dados em notas promissórias.

O volante só vira volante porque não é alto pra ser zagueiro, nem rápido pra ser ponta, nem engenhoso pra ser armador.

Convencido da sua própria banalidade, o menino ainda novo junta a camisa 8 do chão de terra, ergue a cabeça, aceita o papel de coadjuvante e sai por aí carregando um piano que ninguém enxerga.

 

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É assim com milhares de piás Brasil afora e foi assim com Souza, volante do Bahia, que há muito tempo aceitou o fato de não ser herói, de não ver menino algum chegar na loja e bradar pela camisa número 8 do tricolor da boa terra.

 

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Acontece que no silêncio da intimidade, os brucutus também amam. E até os volantes mais rudes sonham quietos e esperançosos com o dia da libertação, com a carta de alforria, esperando sua princesa Izabel.

E os roteiristas da bola, que não costumam dar ouvidos a esses apelos, às vezes deixam o sarcasmo de lado e resolvem premiar em vez de achincalhar. E ontem, eles resolveram acudir o chamado de Souza, fazendo do guardião da grande área do Bahia o paladino da tarde na Fonte Nova.

Ele, que sempre foi acostumado a destruir o ímpeto inimigo, acabou sendo o sublime executor de todos os três tentos do Tricolor de Aço na semifinal da Copa do Nordeste, ontem, num campo apinhado de 40 mil almas tórridas.

O primeiro tento nasceu de um chute embebido em ódio, vindo da intermediária, anotado, verdade seja dita, em conluio com o arqueiro, que pulou com as mãos no bolso.

O segundo, oriundo de um pênalti controverso, foi batido com a classe de um camisa 10: bola num canto, arqueiro no outro.

O terceiro, retrato da vida de volante, nasceu de um bumba-meu-boi na área do Sport, e quando a bola espirrou, o camisa 8 lançou as botas pra cima dela – era o gol fatal, que daria não só a classificação ao Bahia, mas também a marca de tripleta ao feito do volante.

E assim, meio fábula, meio verdade, o Bahia venceu o Sport por três a dois e foi outorgado finalista da Copa do Nordeste, onde vai se ombrear com o Ceará, de Magno Alves, o cidadão que, por ora, guarda Cristiano Ronaldo no bolso esquerdo do paletó.

Mas maior ainda do que a vitória é o fato cabal de que hoje, do Cosme de Farias à Boca da Mata, as crianças todas estão numa contenda terrível pela camisa 8 do Bahia – todos querem ser Souza no Futebol da escola, querem ser volantes no treininho da educação física, querem até ser ruivos se a mãe deixar. Porque ontem, em Salvador, Elierce Barbosa de Souza redefiniu o conceito do que é ser volante nessa vida crespa onde só atacante sabe sorrir.

 

O DIA QUE BAHIA E VITÓRIA CAÍRAM JUNTOS PARA A SÉRIE B

 

Fotos: Felipe Oliveira / Gazeta Press

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Um pronunciamento sobre

Os brucutus também amam

  1. “E assim, meio fábula, meio verdade, o Bahia venceu o Sport por três a dois e foi outorgado finalista da Copa do Nordeste, onde vai se ombrear com o Ceará, de Magno Alves, o cidadão que, por ora, guarda Cristiano Ronaldo no bolso esquerdo do paletó.”
    Perfeito!

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