Os 31 segundos mais sublimes do futebol

Coube a Carlos Alberto Torres a honra de marcar o mais bonito gol da história do esporte bretão

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A essa altura, 41 minutos do segundo tempo, o relógio no canto da tela serve só pra medir a aflição. Não há mais nada que a Itália possa fazer: o marcador do Jalisco lê 3 a 1 para o Brasil e a Jules Rimet já escolheu o colo onde vai deitar.

Ainda assim, Antonio Juliano carrega a bola pelo lado direito de ataque. Procura um milagre, um passe que rasgue a zaga do conjunto brasileiro, um gol que dê mais dignidade à derrota. Apressado, ele não percebe Tostão, incansável, no seu encalço, e segue a descida até que é importunado pelo golpe rasteiro de Everaldo. A bola espirra e cai mansa justo nos pés de Tostão, recompensando a corrida de 20 ou 30 metros no campo de defesa.

Com o bico da chuteira canhota e a calma de mil monges, ele passa a bola para Piazza, que logo sai com Clodoaldo, que liga Pelé, que dá pra Gérson, que devolve pra Clodoaldo. São todos passes de primeira, toques medidos à trena. Tudo acontece com calma, no nosso campo de defesa, enquanto o estádio vai sentindo os calafrios do prenúncio da grandeza.

O nosso camisa 5 domina a bola curta e já recebe a marcação italiana, que chega depressa demais. Ele puxa o couro para o lado esquerdo, deixando o marcador dar o bote no vazio. E nem bem respira e já chega outro antagonista, também ceifando canelas, cheio de pressa, e novamente Clodoaldo corta para a esquerda, sem se dar conta que ali há um ninho azul, repleto de defensores sedentos pela bola. De todos os movimentos, o nosso médio escolheu o errado e caiu numa fogueira de brasa viva. Mas tudo ali é sagrado – a balança aleatória do destino quis que coubesse àquele jogo, àquele escrete, escrever a história.

E então, mais que depressa, Clodoaldo corrige o erro num só golpe e deita o terceiro marcador com uma finta vexatória, que entorta o cidadão de tal forma que é capaz que ainda hoje o movimento doa na quinta vértebra do italiano. E vem ainda um outro marcador, que é Juliano, aquele, que já perdera a bola para Tostão, e Clodoaldo também o leva na conversa.

São quatro fintas no campo de defesa. São 4 segundos que precedem o magnífico.

O meia-cancha ainda tem tempo de parar a bola e gastar um segundo, ou meio, pensando no que acabara de fazer. E a Squadra Azzurra, a câmera não mostra com precisão, também para, é certo, pra refletir sobre aquele passeio.

Satisfeito com a própria labuta, Clodoaldo entrega a bola para Rivelino, que a domina com um toque. E já no segundo, lança Jairzinho na intermediária esquerda.

 

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É a primeira viagem longa da bola. Até aqui, tudo era pequeno e curto, mas agora Rivelino descobre que o campo é maior, que há um latifúndio imenso para plantar as vinhas que logo vão embebedar o nosso povo.

Acossado pelo beque, Jairzinho mata a bola de costas, vira e corre pelos contornos da grande área, numa linha paralela. É como se ele quisesse entrar, mas sentisse certa vergonha, ou tivesse ainda algum respeito, ou esperasse um convite.

Então, Pelé aparece em quadro e a bola, feito súdita, corre pros seus pés. Ela vem mansa, sem pressa de querer chegar. E quando o Rei a toca, o mundo todo freia de repente, e tudo desacelera. É como se estivéssemos vendo a reprise do lance em câmera lenta, mesmo antes de ele acontecer.

Pelé tem a serenidade de uma velhinha na fila do pão. A pressa, a euforia, o arrebatamento – todos esses conceitos ficam, de repente, obsoletos, e o Jalisco passa a ser um ponto parado no tempo.

O zagueiro italiano, todo respeito, mantém uma distância cuidadosa de Pelé. E o perfume do crioulo trava os beques de tal forma que ninguém faz nada. Todos ali são meros espectadores, garotinhos extasiados pelo imponderável que está bem ali, diante deles. Para marcar a majestade, parece, pedem licença.

Pelé, então, vira o corpo para o lado destro do campo e, num toque leve feito pluma, passa a bola no vazio. No mais absoluto vazio.

E eis que surge, de repente, uma imensa e intrépida mancha amarela, um borrão na nossa televisão. Um corpo alto, negro, que vem com pressa, esquadrinhando cada pedaço da área inimiga.

A calma toda de Pelé é esmagada pela emergência de Carlos Alberto Torres, um Aquiles em cancha, um soldado de céleres pés.

A bola corre na relva, deitando na grama macia do Jalisco e um milésimo de segundo antes de encontrar a chuteira preta do camisa 4, o tapete lembra de uma carcova que deveria haver ali – estava alinhado desde antes da fundação da Terra – e logo cria um miúdo morrinho que faz a bola subir até a terceira volta do cadarço do homem.

É como se a física se unisse a poesia e outras artes para criar o mais formidável momento do futebol.

E o que se segue é um tiro velocíssimo, com o apetite de uma matilha de lobos, que vai abrindo alas, passando com seu zumbido pelas orelhas dos zagueiros, fazendo brisa nas luvas do goleiro até estourar toda e cada costura das redes de Albertosi.

Cento e sete mil pessoas se põem de pé imediatamente – italianos inclusive, posto que ninguém fica indiferente ao milagre da beleza – e aplaudem e pulam e saltam e se abraçam sem ressalvas diante da tela pintada em Guadalajara.

Está anotado o mais abissal gol da história do futebol. Com exceção de Brito e Félix, o arqueiro, todos os jogadores do Brasil tocaram na bola enquanto os italianos assistiam ao carrossel lírico que desfilava pela campina.

O sagrado se fez no Jalisco. E nasceu no peito da chuteira de Carlos Alberto Torres, o homem a quem coube a honra maior.

Seremos todos saudade, Capitão.

 

Foto de capa: Getty Images

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6 pronunciamentos sobre

Os 31 segundos mais sublimes do futebol

  1. Concordo plenamente.

    O gol de Carlos Alberto, pela ação coletiva construída por meio de preciosidades individuais – a persistência e a consciência de Tostão, os sucessivos dribles curtos de Clodoaldo, a esticada de Rivelino, o passe blasé do Rei e a conclusão perfeita do Capita – é o mais bonito de toda a história do jogo.

    Só que o texto não fica atrás. Lembra a irrepreensível descrição de Sérgio Rodrigues, nas primeiras páginas do livro “O Drible”, de toda a jogada do drible sem bola de Pelé em Mazurkiewicz, na mesma Copa.

    Parabéns e um forte abraço.

    1. Grande Murtinho. Sempre uma honra ter a tua audiência. A descrição do Rodrigues n’ O Drible é qualquer coisa. Acho que eu li e reli aquele capítulo umas doze vezes a fio. E parei querendo mais.

  2. Se em 1970 tivemos o privilegio do gol mais bem produzido de uma Copa, os toques maravilhosos de todo o nosso escrete, em 2016 temos a honra de ler esta descricao magica, que revive toda a beleza e emocao de um lance unico do futebol mundial, desta vez pelas maos deste maravilhoso VELHO! Vida longa!

    1. Ora, mas que prazer ter o senhor por aqui, Benjamin. Apesar do teu exagero, agradeço uma barbaridade pelas palavras. Um fraternal abraço, cidadão.

  3. Caro Velho, o gol do Capita nos derradeiros minutos dessa final torna-se mais belo ainda quando é praticamente cantado nesse seu belo texto.
    Não é a primeira vez que ao tirar 10 minutos entre um relatório e outro aqui na firma, sinto meus olhos marejar lendo seus textos.
    Ao saber da grande perda da última semana, sabia de imediato que o Senhor colocaria as mangas de fora e nos presentearia com essa outra bela obra de arte que são seus textos.
    Nós agradecemos e até choramos.
    Carlos Alberto Torres não só agradece mais ainda, como torna-se mais eternizado ainda.

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