Onde estavas, Chile, quando precisávamos de ti?

O Chile venceu o Brasil. Mas em vez de ontem, bem poderia ter sido na Copa pra nos poupar de todo o vexame

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Hoje, tu vens assim, com teu futebol convincente, com pompa de campeão das Américas, com o hálito quente do teu povo a te apoiar e te soprar pra dentro da nossa área. Hoje, tu trazes a tiracolo uma trama medonha, que vai costurando nosso sistema defensivo, amarrando as pernas dos nossos beques, rasgando nossos lados do campo. Hoje, Chile, tu me trazes esse rebolado sedutor e perverso, e me achincalha até com passes de letra e gritos de olé.

Mas eu queria saber – se tu não ligas de eu indagar – onde é que tu estavas quando nós mais precisávamos, Chile? Por onde passeava esse teu fausto de vencedor, teu jeito paladino de bater na bola?

Precisávamos de ti na Copa do Mundo, aqui mesmo, no Brasil, mas teu braço fraquejou, teus olhos nublaram, tua vista secou – a bola de Pinilla, distraída, só estourou a trave e não as redes. E nós, que carecíamos de uma lição harmónica e simétrica, passamos impunes pela sala do flagelo.

E lá fomos nós, adiante, entrando no Mineirão como quem entra num matadouro, pressentido a morte mas acreditando que a camisa iria jogar sozinha, que Tostão viria pro lugar de Fred, que Garrincha subiria o túnel no lugar do Hulk. Mas não houve nada disso, Chile. Houve, ao contrário, um engodo do destino, que nos armou uma cilada, nos pondo frente a frente com os canhões de Navarrone sem um Gregory Peck pra nos ajudar a escapar.

E, então, veio a desgraça, que nos colheu ainda no ventre, quando pensávamos que a vida seria plena. E veio, então, a dor, a febre, a sanha e, agora, o riso.

Hoje, nós somos um povo que ri estridente para a cara disso tudo. Uma gente que perdeu a fé numa camisa porque, entre outras úlceras mais profundas, ela foi achincalhada em praça pública.

 

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Pinillia: o gol que nunca veio

 

A culpa, claro, não é tua. A rigor, tu nada tem com nossas chagas. Mas tu poderias ter evitado toda essa dor se tivesse jogado assim, como ontem, naquele sábado.

Nós seríamos, quem sabe, um povo ainda um pouco mais crédulo de tudo, apesar da dor. Teríamos vivido a aflição de uma desclassificação numa Copa em casa, mas seria menos vexatório, menos marcante. Porque o lance do Pinillia, a rigor, não virou só tatuagem na pele dele, mas também na nossa. Um estigma feito em brasa, pra não ser mais esquecido. Uma marca que dói toda manhã, querendo lembrar que se aquela bola tivesse voado 2 ou 3 centímetros mais para baixo teria, fatalmente, nos feitos melhores.

Uma vitória tua, Chile, seria como a lição do pai: aquela cintada precisa no lombo, que dói barbaridade, mas corrige a conduta.

Mas tua vitória não veio. E nós não fomos livrados do flagelo definitivo, que, de tanto que arde, nem mais ensina – fica só o corpo em brasa, sem poder ser tocado. Os 7 a 1 foram uma lição hiperbólica, que passou do ponto, que feriu num grau que não tem mais volta.

Tu, Chile, poderias ter evitado a desonra maior do futebol se tivesses jogado como hoje. Mas tu não estavas lá quando nós mais precisávamos. E agora, somos todos vergonha.

 

Foto de capa: AFP / Martin Bernetti  |  Foto de apoio: AFP / Getty Images

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6 pronunciamentos sobre

Onde estavas, Chile, quando precisávamos de ti?

  1. O que poderia doer mais? Uma chinelada de um time mediano ou uma surra cavalar de um grande time? O que poderia ser mais vexatório?
    Digo-lhe, velho, que qual fosse o nosso algoz o resultado seria o mesmo. A dor de uma vara de marmelo aplicada nas costas é mesma do instante em que se recebe uma cinta de couro na lombar.
    O choro é o mesmo.
    Cabe, a criança que se é castigada, entender a lição.
    Isso ainda não aconteceu.

    Parabéns pelo texto!

  2. Ola, Velho. Quanto mais leio suas colunas mais lhe acho sensacional, inteligente, sensivel e objetivo, motivo principal de lhe escrever hoje. Sei que sua coluna nao e de comentarios sobre o esporte em geral, mas sim sua maneira de ver e sentir as coisas. Por isso, quero lhe deixqr sugestoes para voce tratar de assuntos de grande interesse do futebol e de todas as torcida. Ambas tem tirado o brilho e emocao concernentes ao esporte-rei, posto que mexem diretamente com as emocoes e paixoes. Ambas de nigrem o brilho, mudam resultados, frustam torcedores e dirigentes bem intencionados. Ambas ocorreram ontem, 14 de outubro, na Arena Joinville, no jogo Coritiba x Joinville. Por ordem cronologica, a primeira delas, e o desdem, a falta de interesse, a falta de amor a camisa (nao precisa nem ser amor, deixem isso para os torcedores), mas pelo menos o respeito, enfim, o minimo de profissionalismo na hora de cobrar um penalti. Sabemos que ele decide jogos, decide classificacoes e ate rebaixamentos, que era exatamente o caso ontem, para que um atleta fizesse tanto corpo-mole num momento tao crucial da partida e do campeonato. Ja vi esse filme antes, ate na Selecao ja fomos desclassificados pelos batedores de penaltis, que ate nessa oportunidade, deixam a vaidade mandar e querem fazer golacos, serem elogiados pela frieza e classe no momento decisivo. Avise, por favor Velho, aos batedores, que competencia neesas horas e bola na rede. A segunda consideracao, e tao antiga quanto o futebol, mas em pleno 2015, quando centenas de cameras mostram ao pais inteiro as jogadas em cima, os arbitros teimem em cometer erros tao acintosos, como o de ontem. Um penalti, que o Brasil inteiro nao viu (porque nao houve), foi dado pela arbitragem. Em um minuto, o jogo virou de 1×0 pro Coritiba para 1×0 pro Joinville. Mas ainda teriamos, mais. Num lugar onde e rigorosamente proibido o toque no goleiro, (a pequena area) o avante adversario segurou o goleiro e nao deixou que ele interceptasse a bola, de formas que, dessa vez o Brasil inteiro viu, novamente a incompetencia (ou seria desonestidadde?) decidisse o jogo. Placar final e imoral Joinville + arbitro +Kleber 3
    Coritiba 1. Em algum lugar desse jogo houveran interesses axcusos

    1. Ora, meu caro Benjamim. Não poderia concordar mais contigo. De fato, o penal cobrado pelo Kléber foi qualquer coisa absurda. Não me surpreende um chute mal dado, que por vezes acontece, mas achei também acintoso o chute desinteressado do rapaz. Cobrou como quem quer tudo, menos estufar o barbante. Por aqui, fala-se em salários atrasados – que é, convenhamos, uma especialidade da casa no Coritiba. Todo fim de ano é igual e pelo mesmo motivo.

      E volto a concordar contigo sobre o pênalti dado no lance seguinte, dessa vez em prol do Joinville. Não foi rigorosamente nada.

      Ainda assim, entendo que o Coritiba jogou pouco e que o Joinville quis mais a vitória. O juiz mexeu no placar, evidentemente, mas o Coritiba aceitou a mordida.

      Grande abraço e apareça sempre por aqui, moço.

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