O último dez

Riquelme, o derradeiro grande camisa 10 do Futebol, vai parar. E pelo jeito, não há ninguém para dar continuidade à espécie

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Muito se fala na extinção do mico-leão-dourado, do papagaio-da-cara-roxa, do tatu bola, mas muito pouco ou quase nada se diz sobre a iminente extinção do camisa 10.

Ora, se por acaso os bichinhos da nossa fauna deixarem mesmo de existir, será tristíssimo, mas o tempo se encarrega de minimizar os danos – já perdemos outras espécies antes e cá estamos nós, viventes e faceiros.

Agora, se o camisa 10, essa instituição maior das nossa canchas, deixar de existir, o estrago vai ser inigualável. E isso, tempo nenhum corrige. Ficará um rombo do mais grosso calibre na alma de cada amante do Futebol bem jogado, do drible bem dado, da trama bem costurada.

Pois é bom, então, prepararmos o lombo, porque o chumbo é quente e a melancolia é vasta: um dos últimos exemplares do bamboleio da camisa 10 anunciou que vai parar.

Assim, sem mais nem menos, sem lembrar que ainda nem bem nos refizemos do golpe da parada de Alex, Juan Román Riquelme decidiu arriar os meiões.

E sem ele, dói dizer, estamos desamparados. É só esticar o pescoço pelos nossos campos e perceber que estamos sós. Vemos noves, setes, três, uns, mas nem um mísero dez clássico. Os que tínhamos, envelheceram. E não veio nenhum pra dar continuidade à espécie.

Talvez nós devêssemos cuidar melhor dos meninos que ainda estão despontando por aqui. Mas tem que ser um cuidado materno, como o que damos às tartaruguinhas marinhas que vem desovar em Ponta dos Mangues, com aquela cautela artesanal desde o primeiro dia.

Porque o camisa 10 é, na essência, um bichinho frágil feito elas. Ele nasce num habitat inóspito, onde a preparação física é mais fundamental do que a visão de jogo, onde a força vale mais que a inteligência. Correr é mais importante que pensar, desde cedo.

Nas escolinhas de Futebol, ele já é sacudido por professores sedentos que querem acelerar sua cadência, mudar seu compasso. Volantes e beques querem logo ceifar suas pernas.

Nos campos como na vida, também há a seleção natural. E os Darwins da bola pensam que aqui, tal qual na natureza selvagem, só os fortes sobrevivem.

 

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Assim, aos poucos, vamos sufocando o talento que nasce no nosso quintal. Fazemos hoje com eles o que fazíamos antigamente com os canhotos: engessamos o talento congênito e os forçamos a fazer do nosso jeito, obedecendo ao status quo.

Deveríamos fazer diferente. Deveríamos guardar nossos dez em incubadoras, imunes ao Futebol europeu, distantes da volúpia e do frenesi de lá.

Nossos Riquelmes tinham de ser reproduzidos em cativeiro, nos campinhos de terra pela América do Sul, regados a sol, molhados na chuva e batizados no pó, ali mesmo, no seu terreno preferido. E depois de criados e crescidos, tinham de ser despejados nas canchas desta terra toda a fim de encontrarem um parceiro de peleja e formarem duplas célebres, que se reproduzissem pelo exemplo.

Quem sabe assim não teríamos agora numa várzea qualquer, numa quadra de salão perdida entre o Oiapoque e o Chuí, numa Copinha que seja, um menino ainda de cabelo sério, chuteiras pretas e camisa 10 esperando alguém olhar.

Seria a mais pura e imaculada alegria. Nós cuidaríamos dele como deveríamos ter cuidado dos outros. Nós o levaríamos solto pela grama verde, driblando espinhos e saltando mato, salpicando nossos coraçõezinhos duma alegria tão saudosa que a gente já nem lembra bem como é que é.

 

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Foto de capa: labombonera.com.ar  |  Foto de apoio: AP Photo / Natacha Pisarenko

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3 pronunciamentos sobre

O último dez

  1. Velho, me espanta você ainda não escrever para nenhuma revista/jornal especializados, acho que como nos campos, faltam bons ‘olheiros’ no meio jornalístico. Você mais uma vez me emocionou me lembrando da despedida de um dos maiores que vi jogar, por pouco tempo, mas ainda pude captar um pouco da maestria desse gênio.

    1. Bondade sua, meu caro. Eu tive a felicidade de ser convidado pela Gazeta do Povo para escrever uma crônica sobre o Atletiba. Foi a primeira – numa dessas teremos outras no futuro. Quem sabe? Obrigadaço pela audiência e pelo carinho, Judáh.

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