O time que se ama em segredo

Aos poucos, a Chapecoense vem arrebatando todo e cada coraçãozinho brasileiro

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Eu não sei bem se é o mascote, aquele indiozinho que nos fisgou o coração, se é o orçamento miúdo, se é o estádio chamado Condá ou ainda qualquer outra forma irresistível que o carisma toma quando adentra o futebol. O fato é que a Chapecoense tem um encanto natural que nos toma cativos e que nos esquenta o coração.

E quando vemos, estamos todos, ainda que em segredo, torcendo para que aquela camisa verde sobrevenha as outras e que ela resista bravamente na primeirona e que ela evite o sofrimento daquela sua gente feliz.

Talvez no Brasileirão, onde há rebaixamento e somos todos concorrentes diretos e sedentos pelas mesmas coisas, o coração esmoreça e o carinho se perca entre tabelas e simulações de resultados. Mas na Copa Sul-Americana, onde nós, brasileiros, topamos com estrangeiros, a ternura pelo escrete catarinense reacende violentamente, tomando de assalto nossa torcida e nos fazendo vibrar a cada lateral conquistado, a cada cruzamento cortado na hora certa.

Ontem, foi assim. A Chapecoense encarou o Libertad, time calejado e experimentado a grandes graças no Paraguai. E aqui, cada qual no seu canto, nós todos cedemos nossa fé e nossa torcida para encorpar o coro catarinense.

Pelos sofás do Brasil inteiro, torcedores de toda e qualquer outra camisa doavam a garganta e os pulmões para o time de Chapecó, emprestando também a fé e lançando doutrinas ao vento, na esperança de que, de alguma forma, aquilo tudo ajudasse a empurrar aquela camisa, ou, no mínimo, confundisse os adversários.

Por uma noite, paranaenses, paulistas, cariocas, mineiros, gaúchos e todos os seres viventes que sabem o que é viver e sofrer o futebol, puseram abaixo suas flâmulas e ergueram, na intimidade do silêncio, um mastro com o pavilhão verde e branco a estufar pelos ventos incertos da aflição.

Jogo duro, terminou numa igualdade salomônica e foi, então, combinado que os dois times bateriam pênaltis a fim de decidir quem merecia seguir vivo pelos caminhos do prazer, e a quem era guardado sentir o sangue subindo pela boca.

Nesse momento, uns poucos brasileiros que ainda não haviam se doado ao magnetismo de Chapecó foram, então, dobrados, como que convencidos a levar as unhas até a boca e padecer por estranhos.

E o Brasil esqueceu de ser quem ele é, e foi, por uma noite inteira, todo Chapecoense, todo verde e todo branco.

E seremos assim ainda mais daqui pra frente, posto que agora a pugna é contra os argentinos do River Plate, inimigos íntimos de boa parte de nós todos.

Agora, mais do que ontem e mais do que nunca, cruzeirenses, flamenguistas, botafoguenses, enfim, nossa gente inteira será Chapecoense. E a camisa verde de Santa Catarina será, por uns dias, querida como a camisa canarinho.

 

RELEMBRE O DIA EM QUE A CHAPECOENSE APLICOU 5 A ZERO NO INTER

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4 pronunciamentos sobre

O time que se ama em segredo

  1. vai escrever assim lá na… como consegue expôr tantas idéias com palavras sagradas? grande velho cronista, parabéns por nos deleitar com informação e emoção.

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