O sintético, o autêntico e tudo o que há no meio

O destino, cheio de ironia, escolheu que a homenagem do Coritiba ao passado caísse no mesmo dia da celebração do Atlético-PR ao futuro

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Na época em que Dirceu Krüger, o Flecha Loira, chegou por aqui existia ainda o amor. Mas isso é coisa que vocês, moços, não sabem nem que cheiro tinha. Eu até tentaria explicar dizendo que o amor do jogador pela camisa era o mesmo que o torcedor sentia, mas isso também seria em vão porque o sentimento do próprio torcedor andou mudando ferozmente nesses dias em que o concreto do estádio foi sendo engolido pelas espumas do sofá e pelos campos da TV a cabo.

Com o tempo, o torcedor quedou paralisado, agonizante, dividido entre um time da cidade e mais uns times estrangeiros – um time em cada país, de preferência, como se a vida fosse uma partida de War –, com o coração repartido entre o artilheiro do time da sua cidade e mais uns quatro ou cinco cínicos da televisão, artistas forjados no telão das arenas, bebês de proveta da mídia.

Mas vamos, por um instante, imaginar que vocês saibam o que é o amor.

Pois foi nesse tempo, da inocência, que Dirceu Krüger chegou ao Coritiba. Era 26 de fevereiro do ano da graça de 1966. E o povo, naqueles dias, amava uma única camisa, e o jogador da camisa, como que por fidelidade, costumava amar de volta um único trapo. Com Kruger, foi assim.

Em pouco tempo, o polaco gamou na verde e branca e viu a própria pele se agarrar ao tecido a ponto de uma coisa nunca mais soltar da outra.

Deu a vida pelo clube.

Em 1970, numa dividida com Leopoldo, arqueiro do Água Verde, levou uma joelhada pavorosa na boca do estômago, o que lhe rasgou a alça do intestino e o fez cair inerte na grama, esperando o rabecão, que, ninguém sabe como, nunca veio, mas essas coisas é melhor não indagar porque o destino não gosta muito de ser questionado.

Foram 70 dias de hospital, entre unidade de terapia intensiva e visitas de padre, que chegaram a lhe fazer a extrema-unção para que a viagem até o outro lado fosse leve feito um drible do Garrincha.

O Flecha sobreviveu. E prestou mais uma extensa lista de serviços ao Coritiba ao longo dos próximos 44 anos.

Hoje, Krüger está completando 50 anos de Coritiba Foot Ball Club, três vezes mais que a média de matrimônios dos brasileiros, que são sabidamente preguiçosos quando os primeiros problemas estouram.

Enquanto esse texto se descortina diante de você, na frieza da internet, Dirceu e uma multidão de viventes felizes e orgulhosos da vida estão nos arredores do Major, inaugurando uma estátua em bronze e celebrando o mais autêntico e afetivo relacionamento do futebol nacional.

Quase ao mesmo tempo, em outro lado da cidade, outra multidão festeja a inauguração de outro ícone, mas esse, ao contrário, é sintético, é feito à máquina, é produzido em indústria.

 

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Gramado da Baixada, quando ainda era natural, recebendo banho de luz.

 

A grama sintética da Arena da Baixada é o contraponto da história de Krüger. O Conde e o passarinho.

Antes que os moços inflamados virem seus dedos em riste contra a minha cara, explico que essa não é uma crítica à grama artificial do Joaquim Américo – é uma constatação do paradoxo do futebol moderno.

É a conclusão inapelável de que o velho já não cabe mais.

Dirceu está cumprindo seus dias de Coritiba e, quando expirar, jovens tomarão o seu lugar. É a história do mundo. E é também a história da melancolia, porque nunca estamos verdadeiramente prontos para ver aquilo que a gente ama mudar.

O futebol, daqui pra frente, será feito muito mais de gramas sintéticas, de chuteiras coloridas, de arenas milionárias e muito menos de Dirceus, de amantes de uma única camisa, de chuteiras pretas, de estádios do povo.

O futebol não está morrendo. É mais triste do que isso: o futebol está se transformando numa outra figura que a gente não sabe bem o que é.

Vida longa a Dirceu Kruger, o último amante.

 

Foto de capa: Gazeta do Povo / Arquivo GRPCOM

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7 pronunciamentos sobre

O sintético, o autêntico e tudo o que há no meio

  1. E hoje, no mesmo dia do seu texto, a Umbro lança uma linha de chuteiras pretas, fazendo uma campanha publicitária para divulgá-la que os tempos antigos voltaram. Mas o que é absurdo é justamente o que eles acham “bacana”. Não se faz alarde para lançar chuteira preta. Não se lança chuteira preta só pra ganhar nicho de mercado. Você não devolve alma ao futebol como desculpa para ganhar dinheiro.

    Não se é autêntico se for sintético…

  2. Ótimo texto. O romantismo está se perdendo, o pegar na mão da namorada, saborear o conhecer, hoje se começa pelo fim e não tem começo. Se fidelizar é um sonho do que deveria de ser a realidade, se come e joga fora até o prato que comeu. O futebol vive essa onda, o bacana é o que está em evidência e o bom garoto é aquele que tem dinheiro no bolso.

  3. Perigosa a armadilha do saudosismo: fantasiar o passado e lamentar o presente. Velho, em 66 ja havia saudosistas que lamentavam o caminho que o futebol estava tomando e lembrando do verdadeiro futebol da década de 30

  4. Irônico. A arena “sintética” vai receber um público de quase 40 mil pessoas que irão presenciar um time orquestrado por um camisa 10 declaradamente atleticano, além de mais meio time raçudo e com forte identificação com o clube. Enquanto que, o outro lado, amargura um estádio caindo aos pedaços, uma administração pífia e um time sem tesão, tenta desesperadamente fazer alguma coisa pra amenizar o tamanho salto do rival rubro-negro.

    1. A ideia não é discutir a diferença entre Atlético-PR e Coritiba, meu caro. A crônica fala é da ironia de vermos os dois clubes celebrando coisas tão diferentes: um o futebol moderno; o outro um relacionamento duradouro, coisa antiga e cada vez mais escasso no futuro. Capiche?

  5. É amigos, o futebol mudou como tudo muda. Vivi as décadas de 70 e 80, onde o amor à camisa era regra. Hoje não existe mais. Nenhum clube tem mais jogador com dez anos de camisa. Não tem mais Maracanã com sua geral e públicos de 140 mil(não me venham falar que aquela arena bonita é o Maracanã, inclusive está fechada sabe-se lá até quando). Hoje temos as arenas que mais parecem shoppings, com suas poltronas confortáveis e seus kits de alimentação caríssimos.
    Acho que não existe certo ou errado nessa história. Tudo muda, por que o futebol não iria mudar?
    Enfim, sou um saudosista ao extremo. Quando tenho saudade do futebol do passado vou à Rua Javari. Mesmo que o futebol apresentado seja ruim, pelo menos quando atravesso o portão principal parece que voltei no tempo. Parabéns pelo texto, reflete bem a realidade atual. Abraço.

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