O que o tempo não esquece

A humilhação que a Chapecoense impôs ao Internacional jamais vai ser esquecida. Por uma torcida e pela outra

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As derrotas costumam vir em três espécimes distintas: há as corriqueiras, que sofremos com relativa frequência e que, por pertencerem ao cesto do comum, nos machucam pouco; há as derrotas inflamadas, que cobram o alto preço da eliminação diante de um grande adversário e, por isso, são sentidas por muito tempo; e há, enfim, as derrotas definitivas, que soltam o riso do escárnio na nossa cara por duas eternidades, nos estendem aqueles dentes amarelos da humilhação, nos marcam o peito a ferrete em brasa. Essas, são as goleadas grandiosas, que de tão descomedidas parecem sair de um épico de Homero.

Pois foi esta última classe de revés que acometeu hoje a camisa do Sport Club Internacional.

Uma derrota abissal que não constava nem nos esboços mais pessimistas dos céticos profissionais.

Foram cinco gols contra nenhum, cinco doídas cintadas no lombo gaúcho, cinco coices nervosos no peito duma camisa que, ainda que forte, vem de passear pelos bosques sem espinhos da vitória e, portanto, não conhece bem o desespero e as agruras da humilhação contrária.

Derrotas como essas mereciam um lugar debaixo do escudo, no contraponto das estrelas, no contraturno da alegria. Elas merecem um lugar só delas, o quarto escuro do filho que já morreu, o fel amargo que detestamos beber mas que, de quando em quando, precisamos mergulhar os lábios pra saber que a vida não é mansa como na propaganda do Bolsa Família.

Pois mesmo que não costuremos essas marcas na camisa elas ficam tatuadas no peito. As derrotas humilhantes, meus caros, têm esse hábito teimoso: elas vêm feito posseiras e fazem morada nas curvas da memória onde nem o Alzheimer alcança.

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Há, contudo, um outro lado da tristeza colorada: a alegria cabal e irrestritas dos torcedores da Chapecoense.

Podemos concordar com alguma facilidade que o escrete catarinense não é dado a tantas glórias a ponto de guardar essa vitória na prateleira do ordinário, ao lado de um êxito qualquer da Série B.

Antes, essa vitória será passada de geração em geração, contada por pais para os filhos aninhados na palha quente do útero da mãe, anotada nos anais da cidade e celebrada feito dia santo.

A camisa verde envergada pelos heróis de hoje passa a ser um troféu de estofo, uma túnica imaculada, item a ser disputado por herdeiros ébrios e seus advogados diante do inventário do pai.

A vergonha degradante do Internacional é o orgulho salutar e edificador do povo de Chapecó.

E mesmo proibida até nos becos mais lúgubres de Porto Alegre, essa história deve ser contada à exaustão no Rio Grande, em Santa Catarina, no país inteiro, sem compaixão, sem piedade – e enquanto os catarinenses se alegram trôpegos de pilsen e lager, os gaúchos têm sua alma forjada na brasa quente da humilhação, coisa que essa camisa, por ser grande demais, conhece pouco.

 

RELEMBRE A INAUGURAÇÃO DO BEIRA-RIO 

 

Foto de Capa: Sirli Freitas / Agência RBS | Foto de apoio: Marcio Cunha / AGIF / Gazeta Press

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Um pronunciamento sobre

O que o tempo não esquece

  1. Estamos (falo pela torcida, já que por mim não conseguiria sozinho) em estado de espanto. Desconfiados da glória vermelha ou, pelo menos, olhando torto para quem usa a gloriosa avermelhada sem se dar ao comportamento adequado, que é ganhar e ganhar bem. Seu post não melhorou as coisas. Não queria ser ninguém desse time hoje, no aeroporto Salgado Filho. Não que pense em violência, não haverá. O que ocorrerá é a indiferença com a chegada da delegação. Dói mais do de os 5X0

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