O outro rebaixamento

Mesmo que alcance o milagre de não cair, o Coritiba vai sofrer um inevitável descenso no fim do ano: a saída de Alex

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O rebaixamento do Coritiba vem à galope. Rápido como as piores notícias.

Será o terceiro em 9 anos. Uma média ultrajante, que marca com sangue e sanha a história do Coxa.

Mas há esperança. Sempre há. Enquanto houver matemática haverá convicção.

Quem sabe os Roteiristas do Futebol vejam graça diante dos olhos do Coritiba e resolvam poupá-lo do Hades da bola por meio de uma exceção sobrenatural, aberta somente ao Fluminense de 2009.

Ora, ainda assim, mesmo livre da tirania, a torcida do Alto da Glória terá o seu riso de alívio violentamente interrompido por um choro impetuoso que anuncia um outro rebaixamento. Este, sim, é certo, infalível, confirmado – a despedida de Alex.

Serão mais 9 jogos com a verde e branca e mais nada. Dia 6 de dezembro, o último exemplar dos homens que jogam por amor ao escudo fará a sua última partida com a camisa do seu time de infância. E depois, sem nenhum poder de escolha, o Coritiba será rebaixado inapelavelmente à categoria de um escrete comum, que já não vive mais sob o broquel de um herói verdadeiro mas que pertence à ensossa ordem dos times triviais.

Notem: o rebaixamento à Série B, caso venha, é passageiro. Lúgubre e obscuro, mas passageiro. No ano seguinte, vencendo o certame já volta ao cume do Futebol. Mas perder Alex é um descenso definitivo e irrevogável. Não há escape, nem reviravolta no script, nem Tristão Garcia.

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Desde que Alex foi embora destas terras pela primeira vez, em 1997, o Coritiba vivia sob a promessa da sua volta. A cada contratempo que o clube colecionava, a certeza rompia o peito da torcida: “vai mudar quando Alex voltar”.

Foram 15 anos de um povo à espera de um libertador, dum abolicionista que viesse quebrar o jugo de todo arquibaldo sôfrego por um miúdo sorriso.

Ele veio, jogou, encantou e, agora, em meio à melancolia, vai embora.

Portanto, à imensa torcida alviverde, faço um apelo: que vá assistir a estes 5 jogos que ele ainda fará sobre o terreno sagrado do Couto Pereira. Empreste dinheiro, venda carnês do Baú, devolva a TV das Casas Bahia, empenhe um rim e perdoe a temporada imberbe que o seu time faz neste ano e compareça, munido de corpo e alma e flâmulas e gritos, à arquibancada do Major.

Vá ao campo e leve consigo, a tiracolo, o seu filho, mesmo que de pouca idade, que ainda não distingue uniforme, que não sabe bem o que é uma bola, que prefere a maciez do berço à aspereza do concreto armado. Leve-o mesmo assim para que ele tenha o direito de bradar mais tarde que viu Alex jogar.

Sorvam, juntos, cada gota da genialidade do menino de Colombo. E aproveitem todo toque na bola nascido naquele pé esquerdo, preciso feito bisturi.

Tomem de assalto aquele campo formidável e registrem nas gavetas bem forradas da memória cada passo e passe que ele dá em campo.

Deem a ele a chance de ver o estádio da sua infância lotado, cheio de almas vorazes. Que haja um coro exclusivo, ecoando de ferradura a ferradura, gritado por 40 mil gargantas vibrantes. Um cântico de agradecimento, de reconhecimento pelo amor que ele tem por essa massa.

Aproveitem, meu caros amigos, pois logo não haverá mais aquela cabeça reluzente pedindo bola no meio de campo, com camisas devidamente guardadas dentro dos calções, tarja de capitão leve no braço esquerdo, desfilando raça e promovendo ternura – serão onze jogadores em campo e nenhuma lenda a passear pelo gramado do Couto.

O filho das arquibancadas vai embora e restará somente o videoteipe de toda essa história, carcomido pelas traças do tempo.

Aproveitemos, portanto, pois o mais ferrenho dos rebaixamentos é certo. E ele não vai poupar uma só alma que encontre prazer em ver o mais fino do Futebol.

 

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Foto principal: Heuler Andrey / Agência Estado  |  Foto de apoio: Geraldo Bubniak / Agência Estado

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2 pronunciamentos sobre

O outro rebaixamento

  1. Sei o quanto dói..!
    Vi um menino chegado ao meu coração chorar quando Alex foi embora e o ví sentir sua ausência durante anos a fio… que pena vê-lo sentir isso tudo outra vez.
    Que pena não vê-lo sentir a alegria nos domingos de jogo do Coxa quando Alex jogava.
    Que pena saber que isso dói pra ele também!
    Mas deixo aqui um recado a esse menino: outras alegrias virão! Deus tem as maiores surpresas pra você, menino do meu coração!

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