O Olímpico continua vivo

Alguns estádios não morrem nem depois do último tijolo ao chão – vai ser assim com o Monumental, do Grêmio

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Moribundo, é verdade. Trôpego. Com os joelhos querendo dobrar e a carcaça desejando deitar, fechar os olhos e descansar num silêncio particular. Mas ainda assim, o estádio Olímpico Monumental continua vivo.

E precisava mesmo ser assim, porque não há morte mais triste no Futebol do que a de um campo. Aquela frieza de cimento e aço torcido é quem guarda, na verdade, a alma de tudo isso o que nós amamos. E quando uma cancha é largada, esquecida, trocada por uma arena mais nova, com croissants nas lanchonetes e cheirinho de Glade nos corredores, todos nós morremos um pouquinho. Mandantes e visitantes, donos da casa e adversários. Porque um estádio antigo é, ao mesmo tempo, concreto e alma. E ele não está só lá, naquele endereço onde costumamos ir aos domingos – ele está tatuado na história de cada garrote, velho ou moço. Do outro lado, por mais espetacular que seja, a quadra nova é estéril e insossa. Linda e formosa, talvez, mas sobretudo virgem e inviolada, leiga da dor e do êxtase.

Quando o Grêmio anunciou que trocaria seu velho campo por um novo, que respeitava todas as recomendações do caderninho imoral de Blatter, o torcedor sorriu alegre. Mas, com o passar dos dias, percebendo que o Olímpico viraria apartamentos de senhoras, começou a ser tomado de um choro compulsivo e violento – ele lembrava que a fatia mais fundamental da camisa tricolor havia sido contada dentro daquela caçarola de cimento, em cima daquela grama sacra.

Hoje, a Arena está lá, impávida e colossal, senhora de toda beleza, mas vazia dos grandes causos contados em mesa de bar. E o Olímpico, todo história, dorme quieto, largado aos cães de rua e seus passeios cheios de esterco e adubo.

Pois agora, num gesto imenso como a história daquele campo, o Grêmio resolveu doar alguns órgãos do seu corpo antigo para quem precisa – está dando mil cadeiras antigas do Olímpico para o Estádio dos Eucaliptos, casa do Riograndense, clube da Série B do Gauchão.

 

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É tempo, enfim, de aquelas cadeiras voltarem a ver um pouco daquilo que elas viam no antigo Monumental. Não será com o mesmo brilho e galhardia de antes, mas elas verão, afinal, o mais puro, genuíno e imaculado Futebol.

Não haverá ali outro Renato Gaúcho, outro De León, outro Ronaldinho. Mas haverá bola rolando lisa na relva, gritos de toda gente, lágrimas, palmas e charangas. E as cadeiras, que já não esperavam muito mais da vida, voltarão a sentir as mãos aflitas dos torcedores, as bicudas inflamadas depois de um contragolpe perdido, o calor dos corpos levantando em harmonia, o zumbido terrível das vozes em uníssono, o ajoelhar doído e desesperado dos devotos.

E assim, coração velho em corpo novo, o Olímpico há de seguir vivo por muitos anos ainda, até o dia em que aquelas cadeiras darão também seu último suspiro, sendo abruptamente substituídas por poltronas mais novas e mais confortáveis. Quando esse dia cabal chegar, o último pedaço do Olímpico ruirá inapelavelmente. E a cancha sagrada ficará viva somente nas nossas memórias, onde não há interesse nenhum por novidades nem por modernidade. Ali, fica vivo só o que a gente quer – e o que a gente quer é o Estádio Olímpico Monumental vivo, sempre vivo, desavergonhadamente vivo.

 

UM GRENAL INESQUECÍVEL PARA O GRÊMIO: 12 MINUTOS PARA A ETERNIDADE

 

Foto de capa: Maiara Bersch / Agência RBS

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