O inexorável poder da goleada

Quando se empilha seis gols, um em cima do outro, todo o resto fica pequeno – até as crises

daniel_teixiera_estadao

 

De nada adianta os pessimistas cismarem – é fato cabal e indiscutível que nada tira a formosura de uma goleada.

Uma brava gente, de cara feia e testa franzida, vai dizer que o adversário, quando muito frágil, tira o brilho da façanha. Mas a verdade é que nada pode abalar a força de um resultado nababesco, farto em gols. A goleada tem um poder inexorável, uma pujança que é só dela.

Essa história de empilhar gols assim, um sobre o outro, como se fosse uma construção, é de lavar a alma do torcedor com Phebo, enxaguar na água morna e deixar secar à luz da lua.

Pois ontem aconteceu assim. O São Paulo, mesmo mergulhado até as sobrancelhas na lama turva de uma crise política, administrativa, futebolística e de outras ordens, tratou de condensar toda a alegria que faltava em uma única vitória. Foram seis tentos contra nenhum do Trujillanos, da Venezuela.

Ora, dirão os negativos que o time venezuelano não é adversário que se preze. E eu concordarei – montava times mais organizados que esse nos meus passeios pelo campo de Poty quando era piá em Curitiba. Ainda assim, uma goleada é uma goleada. E ela tem poder absoluto.

Porque quando o placar é muito, interessam menos os nomes e mais os números. É a explosiva abertura de contagem no dia seguinte que faz barulho.

Foram seis gols. E foram seis gols em uma Libertadores da América. Pouco importa se o Trujillanos é do tamanho ou menor que um Água Santa, o fato é que ele é um dos representantes da Venezuela no certame, e joga com brio, pra defender uma bandeira.

O placar luxuoso de ontem não conta nenhuma mentira nem esconde qualquer verdade. Ao contrário, é um número que escancara o futebol que o time, quando quer, sabe jogar.

 

eduardo_knapp_folhapress

 

Paulo Henrique, quando joga como ontem, com mil seringas de café aplicadas na veia, é decisivo. E digo mais: é também um colírio para os olhos da gente, que ainda um dia vai morrer de saudade do futebol de outrora. O menino cadencia a bola com a facilidade de um Chaplin, e desfila pelo campo não como um ganso, mas um cisne, flutuando calmo e impávido, passando bolas com a serenidade de quem lambe penas.

Michel Bastos é outro com quem o povão tem pouca paciência, mas também entende do riscado. Quando quer, arruma a meia cancha e dá o tom do jogo.

Rodrigo Caio é bom zagueiro, assim como é Lucão, o suplente, que deu passe para gol com um único e calculado toque de cabeça. E aí, claro, chegamos em Calleri, o patrocinador da euforia.

Ontem, pela primeira vez na carreira, o moço guardou 4 gols em uma única partida. Dois foram de pênalti, verdade seja dita, mas o quarto tento valeu pelos dois do meio, mais fáceis. O argentino recebeu um passe de Canal 100 e saiu na frente de dois beques que, àquela altura, já pensavam em quão vexatório seria o desembarque em Valera e, atônitos, deixaram o cachimbo cair de uma vez por todas. Calleri correu como as piores notícias e deu de cara com o arqueiro, todo pranto e desespero. Sem titubear, o avante tricolor deu um tapa dócil e manso na cara da bola e a largou leve sobre as redes do Morumbi, fazendo o estádio estourar na mais franca farra.

A crise, por ora dorme feito criança nova. E o povo são-paulino, repleto de razão, estufa o peito e comemora o resultado. Nada é maior que uma goleada que fala por si só.

 

RELEMBRE A FINAL DA LIBERTADORES 2015: TRÊS CRIMES CONTRA LA COPA

 

Foto de capa: Daniel Teixeira, do Estado de São Paulo  |  Foto de apoio: Eduardo Knapp, da Folhapress

PartilheTweet about this on TwitterShare on Facebook

11 pronunciamentos sobre

O inexorável poder da goleada

  1. Meu caro Velho, obrigada por esse poema. Por me fazer relembrar idas ao estádio desde os 7 anos com meu avô. Arte não precisa nome, fala por si mesma. E ultrapassa todo limite imposto pelo tempo. Saudades…

  2. Que texto maravilhoso! Faltam mais cronistas no ‘jornalismo esportivo’ de hoje. Como é bom poder ter contato com textos maravilhosos como esse seu, Velho, que me fazem sentir ainda mais saudade de um tempo que nunca vivi.

  3. Comecei num blog sobre cervejas, cheguei aqui por causa do lindo texto sobre o nascimento do seu filho e, para completar, leio essa crônica tão bem escrita, num estilo que me cativa por sua sensibilidade e exaltação à beleza do futebol. Parabéns! Um abraço.

    1. Que felicidade ter você por aqui, meu caro. O Velho começou a colaborar com o Clube do Malte agora e eu fico profundamente contente que já tenha trazido frutos. Na verdade, aquele texto não é meu, mas do Marcelo Guimarães, colaborador esporádico do blogue. Valeu pela visita, meu caro. Grande abraço.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *