Ele viu o Maracanazo e ainda está de pé

O Sr. Ruy Romanó, 86 anos, acompanhou o Brasil na Copa de 1950. E contou ao Velho como foi

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Talvez por conhecer o frio que faz do lado de fora, talvez pela ansiedade em receber de uma vez por todas o homem que vem para fazer a entrevista. O fato é quando toco a campainha, dona Elia Romanó abre a porta imediatamente, como se tivesse passado o dia todo com as mãos no trinco da porta.

Acalorada, ela me vê e logo crava: “Ele está te esperando. E tem um presentinho para você.”

Ele é Ruy Carlos Romanó, 86. Um senhor alegre em demasia, que veste um sorriso permanente na boca. Ele é uma das testemunhas do episódio mais triste do Futebol brasileiro, o Maracanazo. Além disso, assistiu a todos os jogos do Brasil naquela Copa do Mundo de 1950, com exceção do jogo em São Paulo, disputado no Pacaembu.

Entro, olho ao redor e percebo que a casa da dona Elia e do sr. Ruy parece ter parado no tempo. Tudo ali dá a impressão de ser dos dias de Friaça, Bauer e Bigode.

Ele logo me recebe. Dois livros, um em cada mão. Segura como quem guarda as duas tábuas de Moisés. E me mostra orgulhoso – é o La Coupe de Mounde, um par de livros lançados pelo L’Equipe, um dos mais célebres jornais esportivos da França. Ali, diz ele, tem tudo sobre a Copa que os seus olhos viram de perto.

Nos sentamos. E antes de eu fazer qualquer pergunta, ele dispara a falar.

O papo é delicioso. É como se eu conversasse com um velho amigo, distante de mim há 50 anos. Matamos uma saudade que nunca tivemos e eu abro a entrevista.

 

Como surgiu a ideia de acompanhar o Brasil em todos os jogos da Copa do Mundo no Rio de Janeiro?

Era 1950 e eu havia acabado de me formar Engenheiro Civil. Então, eu e mais uns 7 ou 8 amigos resolvemos passar as férias no Rio de Janeiro, para acompanhar os jogos. Ficávamos cada um hospedado na casa de um parente e na hora do jogo, todo mundo se reunia e ia para o Maracanã. Comprávamos as entradas no Teatro Municipal, nas bilheterias, na véspera. E no dia do jogo já estávamos em condição de assistir.

 

E naqueles dias, Copa do Mundo era grande o suficiente para fazer uma trupe sair de Curitiba para o Rio, assim?

Nossa! Eu sempre fui desesperado por Futebol. Sempre gostei muito. A gente achava que aquilo ali era o máximo. Ainda mais pelos jogadores, que a gente conhecia pelo rádio, ouvia falar. A gente queria ver todos eles em campo, bem ali, diante da gente.

 

Mesmo sendo um escrete formado basicamente por cariocas, com ninguém do Paraná?

Naquela época, o Futebol carioca era o mais importante. Mas já havia uma rivalidade entre Rio e São Paulo. Era só o que a gente ouvia pelo rádio. Tanto que o Maracanã foi inaugurado com uma partida entre o selecionado Carioca e o Paulista.

 

Qual a importância daqueles jogos para vocês, para aqueles 7 ou 8 amigos? Hoje, sabemos o que 1950 significou, mas e naqueles dias?

Claro que a gente não sabia que ia testemunhar a história, assim. Mas a gente sabia o tamanho daquilo. Já tínhamos assistido as outras Copas pelo rádio. Desde 30 a gente ouvia. Eu era criança, mas a Copa era a Copa.

 

A Copa parou em 1938 e continuou em 1950, por conta da Grande Guerra. E quando veio, a cicatriz ainda estava aberta para os europeus, especialmente. A Alemanha, por exemplo, nem veio.

Eles vinham com times desfalcados. Quem estava na mocidade, em tempo de jogar bola, acabava indo pra Guerra. Mas eles tinham, já naquele tempo, muito respeito pelos times sul-americanos. Até copiavam muita coisa nossa. O Flávio Costa, nosso professor, desenhou uma formação majestosa, e eles estudavam o nosso Futebol.

 

O senhor lembra bem do primeiro jogo do Brasil?

Lembro bem. Lembro do assombro que foi entrar no Maracanã pela primeira vez. O Maracanã…

[Ele gesticula e silencia. As palavras parecem não entregar exatamente o que ele quer dizer.]

O que que eu vou dizer? É o Maracanã. Como diz aqui no livro, é uma catedral sem teto, uma catedral a céu aberto.

 

E ele ficou pronto na véspera, não?

[Ele abre um dos livros, folheia até parar sobre uma página que exibe o Maracanã visto de cima. Os entornos não passam de lama.]

Ele foi entregue assim. Desse jeito que você pode ver.

[Ele para e me olha, tentando mostrar o absurdo. E me fazendo entender que nada daquilo que está acontecendo agora, em 2014, lhe surpreende.]

 

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E a entrada no Maracanã. O senhor sabia que entrando num colosso sem precedentes?

Eu me formei como Engenheiro Civil, então eu acompanhei a construção do estádio. Era um motivo importante, uma obra faraônica.

Tão grandioso que até o senhor Eurico Gaspar Dutra, o presidente, foi na inauguração. Naqueles dias o estádio se chamava Mendes de Morais, que era o Prefeito do Rio na ocasião. Mário Filho veio só depois.

Mas, então, quando eu entrei naquele lugar foi um verdadeiro assombro. Um sonho realizado.

Assisti ao primeiro jogo, contra o México, da geral, que nem existe mais. A gente ficava mais baixo do que os próprios jogadores. Mas não era cômodo o suficiente, não dava pra ler o jogo. Depois, nos próximos embates, a gente subiu até as arquibancadas. Ah, era melhor!

 

E a roupa para se ver os jogos? Terno e gravata?

Aqui em Curitiba, sim, com toda a certeza. Mas no Rio, não. Lá as pessoas iam mais à vontade, por conta do clima.

 

E quem, dentre todos aqueles homens de camisa branca [a Seleção jogava de branco naqueles dias] o senhor mais queria ver em campo?

Ah, todos. Eu estava ali para ver todos.

[Ele pensa um pouco, leva a mão à boca e dispara:]

Zizinho. Ah, o Zizinho. O maior jogador que eu vi jogar. Zizinho.

[Ele repete o nome do craque como se isso o ajudasse a aplacar a saudade.]

Depois, mais tarde, eu vi Pelé, eu vi Garrincha. Mas o que eu digo mesmo é que eu vi Zizinho.

Esse foi grande. Até hoje, ninguém me encantou mais do que ele.

 

Muito se fala sobre a culpa do escrete brasileiro. Mas o problema não estava na comemoração antecipada, já que um dia antes todos já davam como certa a taça Jules Rimet?

Todos davam como certa. Mas não éramos nós, os torcedores. Era o mundo todo. Os jornais falavam. Acho que pela forma como classificamos, com goleadas e tudo o mais. As duas partidas que jogamos – 7 a 1 contra a Suécia e 6 a 2 contra a Espanha – mostrava para o mundo inteiro que ninguém podia com o Brasil. Os jornais todos diziam isso.

Aquele seleção era mesmo muito especial. Era diferente. Não havia nada parecido no mundo. Mas naquele dia, aconteceu o improvável. Eles venceram.

O Uruguai ganhou num golpe de sorte.

 

Se jogássemos no dia seguinte novamente daria Brasil, é isso?

Perfeitamente. Ganhamos todos os outros jogos contra eles. O Uruguai nunca mais nos tirou nada.

 

E a final? O clima do Maracanã era o mesmo?

Os outros jogos eram normais. Não ocupavam o espaço todo. A gente ia e escolhia lugar. Procurava sempre a sombra, porque, afinal, é o Rio de Janeiro. (Estive lá agora, vendo Flamengo e Vasco pela decisão do Carioca. E fiquei no sol. Não é fácil. Tive de pôr um lenço na cabeça.)

Mas naquele dia, em 50, estavam todos alegres, conversando, aquela multidão confiante.

O jogo era às 16h e às 10h da manhã já estávamos no estádio. Era muita gente. Onde era para haver uma pessoa, uma fileira, havia duas. Mas o povo educado. Não era como é hoje.

Vimos o jogo todo de pé. Eu estava feliz da vida por estar ali. A entrada, com a afamada Banda dos Fuzileiros Navais, com seus uniformes de gala, foi um espetáculo. Memorável. Aquilo tudo anunciava um grande jogo.

 

Começa o jogo e temos certeza do título. Fizemos um a zero com Friaça, aos dois do segundo. A confiança não poderia ser maior.

Todo mundo cantando. Alegria geral. Acreditávamos piamente. Mas aí o Schaffino entrou na área e fuzilou. O Brasil se desarmou. Para a torcida, ainda dava. Mas o time sentiu.

Depois veio o chute de Ghiggia. Foi como um enterro. Um velório a céu aberto. O maior que eu já testemunhei.

[Ele volta a serrar os olhos. O gol ainda dói. Então, ele volta a me olhar e, num só golpe, sai em defesa do nosso arqueiro.]

Mas já adianto: Barbosa não teve culpa. Culparam o Barbosa, mas pelo que ele fez na Copa toda, seria uma injustiça acusá-lo de culpa naquele momento. Ele era do Vasco e, mesmo eu não gostando do time dele, eu gostava de ver aquele arqueiro jogar.

 

E a festa dos visitantes?

Não me lembro de nada. A derrota me machucou demais. Dizem que eles festejaram em campo, com a taça em mãos. Mas isso caiu da minha memória. A gente não teria tão cedo outra Copa do Mundo pra nos redimir. E nem teríamos, pensávamos, outra Copa do Mundo aqui, no Brasil. Chegar naquele ponto e perder a final foi difícil. Não tinha como aceitar aquilo ali.

 

Alguém, um dia, disse que era possível ouvir um bater de asas no Maracanã. Confere?

[Lá no fundo, a Dona Elia, que se distrai com a televisão, gargalha com a minha pergunta.]

Não digo nesse exagero, mas foi um grande silêncio. Deve ter havido alguns palavrões, mas o silêncio foi geral. Um desnorteamento coletivo. Ninguém estava pronto para aquilo. Não avisaram o povo que nosso time poderia perder. Estava marcado o maior dos carnavais para o Rio de Janeiro. A grande festa da Copa do Mundo. Não houve como aceitar aquilo. Todo mundo saiu magoado. Inclusive eu. Na hora até me perguntei se eu desperdicei dinheiro, mas não – eu estive lá. Eu estive na Copa de 50.

 

Voltemos ao Barbosa. A culpa dele nasceu ali mesmo? Todo mundo falava…

[Ele interrompe com veemência.]

Na hora não houve revolta! Foi só uma justificação depois. Ninguém falava nele no Maracanã. Eles tinham de tentar explicar aquilo ali. A culpa de Barbosa nasceu depois. Tem sempre que ter um culpado, não?

 

Como foi a ida para a casa, o bonde da desolação?

Eu tenho facilidade para superar tudo isso. Depois a gente conversou para tentar entender. Mas foi um resultado esportivo. Não é o caso de levar isso para uma infelicidade, considerar isso um desastre. Doeu muito e machucou muita gente. Mas não é uma tragédia.

 

O Maracanazo é supervalorizado?

O Uruguai valorizou demais. Mas pra gente, a derrota foi duríssima.

 

Outro culpado foi o nosso uniforme branco. Por isso, mudamos para o fardamento amarelo, em 1954. Como foi ver o seu país jogando com outra cor?

Sempre aprovei. Amarelo é a cor forte da nossa bandeira. Tem mais identificação com a gente, com o nosso povo. Eu só não gostei da camisa azul. Nunca. Tem que ser amarelo, né? Sempre.

 

E como foi a Copa de 1954? Era a nossa redenção?

O desânimo era geral. Mas foi só começar a se falar em Copa do Mundo outra vez que o furor voltava. A expectativa era grande. Mas a Copa, claro, não era no Brasil mais, né? O Feola foi escolhido como selecionador. Mas dizem que ele assistia aos jogos dormindo, ali mesmo, no banco. Não deve ser muito verdade, mas falou-se muito. Dizem que os próprios jogadores é que montavam o time. Feola tava ali para agradar os paulistas.

 

E 1958? Hoje a gente sabe o tamanho daquele esquadrão. Mas e naqueles dias, com Garrincha, Nilton Santos, Vavá…

[Ele me interrompe e continua a escalação.]

Pelé, Mazola, Dida, Pepe, Bellini, Zagallo, Djalma…

Estávamos confiantes. Sempre. Futebol, aqui no Brasil, é assim.

 

Qual foi a última vez que o senhor foi a um estádio de Futebol?

[A esposa, dona Elia, ri ao fundo. E logo emenda: “Esse daí? Ora, mas não sai dos campos de Futebol”.]

O último jogo ao qual eu fui foi do Paraná Clube, pela Série B. Não tenho mais físico pra aguentar tanto jogo, eu tenho dificuldade para fazer o percurso do carro, subir as arquibancadas. Mas vou a campo, sim.

Mas sabe, estou muito desanimado com o meu Paraná Clube. Acho que está perdidinho. E a mídia não nos dá atenção. A crônica é meio parcial. Ou é Atlético-PR ou é Coritiba. Eles não querem que o Paraná seja uma terceira força. Dias difíceis para nós.

 

Sobre a crônica esportiva de hoje. Não temos mais Nelson Rodrigues, João Saldanha, Mário Filho, Armando Nogueira. O que o senhor lê?

A primeira coisa que faço quando abro o jornal é ler o obituário – quero saber se meus amigos continuam vivos. Depois, vou direto para a página de esportes. Mas eles não cobrem como antes.

Leio com certo reparo o Tostão. Acredito que tem muita coisa que ele fala que é sério, escrito por quem viveu o Futebol.

 

Pouca gente tem o privilégio de ouvir alguém falar sobre a Copa de 1950. O senhor é sempre o centro das atenções dos jovens, sedentos por assuntos da bola?

[Ele logo ri um riso frustrado.]

Não. Raramente. Eu procuro puxar assunto, falar com os netos, a família. Mas não repercute muito. Acho que eles não sabem o que representa 1950, né?  Eu tento falar sobre isso, mas quando vejo estou falando sozinho.

 

***

Nos olhamos, como se os dois lamentassem a falta de interesse dos moços de hoje e nos despedimos. Eu, feliz por ter ouvido aquilo tudo; ele, orgulhoso demais por, enfim, poder compartilhar suas histórias.

 

 

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