O homem que libertava canarinhos

Foi naquele chute funesto de Alcides Ghiggia que nasceu a verde e amarela

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Só quem esteve no Maracanã naquele 16 de julho de 1950 conhece a dor da fratura exposta que, por vezes, acomete a alma.

Naquele dia, naquele chute funesto de Alcides Ghiggia, aos 34 minutos da etapa final, o Brasil caía humilhado ao chão, desfalecido e ultrajado num vexame público.

Foi uma desonra abissal, não pela derrota em si, mas pela soberba da véspera: a taça, pensávamos todos, era nossa por direito e por decreto. Falava-se no Oiapoque e concordava-se no Chuí que o ouro era todinho nosso.

Mas não era. No Maracanã embebido de 200 mil almas brasileiras, a tacinha era de minguados onze uruguaios.

Acontece que aquela, meus amigos, foi uma derrota necessária. O Futebol, assim como a vida, tem dessas coisas. Às vezes, é preciso uma severa humilhação para que um povo se agigante.

E depois da tragédia do Maracanazo – que de tão épica e tétrica deveria ocupar os livros de história, e não os de esportes, com Obdulio Varela ao lado de facínoras como Napoleão –, a nossa gente se avolumou de forma assombrosa e tratou, com a velocidade de um contragolpe, de culpar a camisa branca da Seleção Brasileira.

Precisávamos de um novo fardamento.

Eis que surge, como um Pelé que brota no canto direito da TV para escrever a história debaixo das traves da Mazurkievski, o mais omitido dos nossos heróis nacionalistas: Aldyr Schlee, um gaúcho que, com uma hemorragia de amarelo dentro de cada pincel, tece a nova camisa da Seleção Brasileira de Futebol.

Estava desenhada, assim, sem qualquer glória, num concurso, nascido da poeira das necessidades iminentes, o fardamento mais imponente do Futebol mundial.

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Uma mudança cabal, que alterou toda e cada estrutura da nossa história.

Não fosse por Ghiggia, por Obdulio Varela, por Schiaffino, enfim, por estes bebedores de chimarrão do país vizinho, este nosso gigante país-continente ainda trajaria branco.

Justo a massa mais carnavalesca e arrebatadora de toda esta estirpe boleira gritaria, a plenos pulmões, por uma camisa imaculada.

A nossa seleção, amigos, não seria a canarinho, nem seria Amarelinha a nossa camisa. O país de todas as cores, ironicamente, jogaria com nenhuma.

Portanto, meus bravos, eu lhes conclamo: agradeçam ao Ghiggia.

Logo mais, a Copa do Mundo de 2014 será decidida no Maracanã. E quanto mais  adiante o nosso escrete for, mais inevitável serão os questionamentos sobre um novo Maracanazo. Mas eu lhes imploro, por favor: lembrem com carinho daquele 16 de julho. Aquela data medonha não foi sozinha o maior crime coletivo do Futebol: foi também onde nasceu a camisa mais pesada que o mundo já viu.

Pelo amarelo do nosso uniforme, pelo caráter forjado no atacado, vamos todos agradecer a Ghiggia. Foi aquele teu chute imprudente, Alcides, que nos projetou para o que somos hoje.

 

Ilustração: Eduardo Rosa

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