O guri morrendo e a caravana passando

A melancólica história do menino que perdeu a vida indo pro Atletiba que nunca existiu

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No cruzamento entre a Mauá e a Amâncio Moro, uma miúda multidão começa a se aglomerar. É princípio de tarde e os tipos que chegam trazem a sede do almoço – vêm bebendo cerveja e descartando copos e latas pela rua. Num olhar ligeiro, a massa verde que se forma é popular e barulhenta. Assusta, porque são muitos. Mas no íntimo cada um ali é uma coisa independente, uma figura emancipada – há pobres e ricos, há crentes e pagãos, há delinquentes e paladinos.

Imediatamente ao lado, soldados da PM montados em seus cavalos assistem a tudo enquanto esperam pelas viaturas que chegarão abrindo alas e impondo o ritmo da escolta até a Baixada, há 5 quilômetros dali, onde Atlético-PR e Coritiba se ombrearão pelo Campeonato Paranaense.

O clima é de festa e farra. Menos para os soldados. Soldados trazem sempre a figura triste e taciturna de quem precisa oprimir. São Javerts correndo atrás de seus Jean Valjeans particulares. São o mau-humor de coturnos. Não sorriem nem apaziguam: fiscalizam apenas. E esperam. Esperam as imensas caminhonetes cheias de mais soldados de coturno e mau-humor, que vão dar à força policial ainda mais o caráter da valentia.

Enquanto isso, os homens e seus cavalos vão organizando o ajuntamento e trazendo todos para perto, estabelecendo uma ordem, criando uma espécie de curral humano.

Ao fundo, ouve-se o som das sirenes nervosas – as viaturas estão chegando. E pelo ruído nervoso dos pneus e dos motores, vêm determinadas a mostrar ao povo quem é boi e quem é boiadeiro.

Pendurados do lado de fora, policiais de cara quadrada e queixo proeminente vão pedindo passagem e abrindo caminho com suas armas de grosso calibre apontadas para o céu.

A multidão, já habituada ao expediente selvagem, vai abrindo espaço para as imensas máquinas impacientes. Até segunda ordem, toda aquela gente é bandida e depravada. E como tal deve ser tratada.

De repente, o estouro: um estampido quebra a paisagem sonora. É um tiro. O tiro de uma submetralhadora de calibre .40, que poderia disparar 1.200 projéteis por minuto, mas dispara um só. Um só ligeiro e decidido projétil.

Ato contínuo, uma das viaturas para e o povaréu recua assustado, abrindo uma clareira no asfalto e revelando a cena dantesca: o corpo de um guri quedado no chão, olhos e bocas abertos, um buraco no peito de onde verte um sangue viscoso.

Faz-se um silêncio estarrecedor. Povo tentando entender o que aconteceu, policiais procurando saber como proceder.


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Até que cinco soldados descem da viatura. Quatro deles catam o menino do chão como quem recolhe um porco abatido, segurando cada um numa perna, num braço. O quinto soldado abre a porta traseira do camburão e assiste aos outros arremessarem o corpo do menino para dentro, tal qual um saco de batata. Eles batem o porta-malas, entram na viatura e arrancam, com pressa e furor, já despreocupados em passar aquela imagem áspera de antes. Suas caras agora revelam profundo desespero e pressa. Eles querem só sair dali, fugir da multidão, que a essa altura já estourou em ódio e começa a se rebelar contra suas fardas e seus comandos.

Os cavalos, assustados, distribuem coices e relincham. Os policiais nas motos são empurrados e caem ao chão. Garrafas, latas e pedras viram armas na mão do povo, que, agora sim, oferece algum perigo.

Um pequeno motim começa, carregado de fúria e indignação. Mas logo novos policiais chegam e esfriam, na marra, nas armas, nos punhos, a cólera da torcida, que ainda tem a espuma espessa da ira caindo pela boca.

Quanto mais o povo indaga, mais a força bruta aparece. Perguntas não são toleradas e só o que cabe àquela gente é marchar.

E eles marcham. O gado abaixa a cabeça e aceita a andança, ruminando a violência e deglutindo a estupidez.

Eles marcham. A cada passo a raiva vai dando lugar à consternação.

Eles marcham. Caminham para um Atletiba que nunca vai acontecer.

 

*Leonardo Henrique da Rocha Brandão, 18 anos, faleceu pouco depois de dar entrada no Hospital Cajuru, em Curitiba. A Polícia Militar do Paraná admitiu o incidente e revelou que um soldado da corporação, ao vestir a bandoleira, disparou acidentalmente a arma de dentro da viatura. A PM, contudo, não explicou por que ele usava uma submetralhadora nem por que a munição era letal.

O texto foi construído com base nos testemunhos de torcedores do Coritiba no blogue Quinta Coluna.

 

Foto de capa: mapio.net  |  Foto de apoio: Banda B

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3 pronunciamentos sobre

O guri morrendo e a caravana passando

  1. Estava a uns 2/3 metros do piá que foi morto. Tudo aconteceu exatamente como está descrito no seu texto, Velho.

    E até o momento não consigo expor realmente o que sinto em relação a isso.

  2. Prezado Velho – Nao estava presente no local, mas acredito que sua narrativa seja fidedigna. Alem da maestria de seu artigo,a situacao desnuda uma realidade dolorosa -quem detem o poder neste pais, o utiliza de forma estupida e inconsequente, bocal e arbitraria, pouco se importando com quem vai pagar a conta, da mesma forma que nossos politicos tratam o nosso Brasil. O exemplo vem de cima, e enquanto as autoridades continuarem a dilapidar o pouco de vergonha que nos resta, tragedias como essa voltarao a acontecer. Infelizmente. E, o pior, impunemente. Acorda, Brasil!

  3. Nunca se veria uma arma letal num evento do MBL; aliás, veríamos selfies com policiais quase à paisana. Ou vocês viram tropa de choque nesses e em outros protestos pró-impeachment?

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