O galardão dos abastados

Aos poucos, o futebol está fechando as portas para a sua plateia fundamental – e o povão segue à deriva

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Ninguém sabe exatamente quando foi porque não tivemos uma solenidade de ruptura, uma cerimônia separatista apresentada por um burguês de laquê no cabelo e algumas gotas de colônia francesa no pescoço, mas o fato é que o futebol já não é mais do povão.

Em doses homeopáticas, ele foi se rompendo do seu público fundamental, da gente o enfeitava, da massa que patrocinava toda a euforia. Hoje, ele é galardão dos abastados.

São muitos os indicativos dessa metamorfose melancólica. O primeiro, e talvez mais evidente, é mesmo a câmera de televisão, que nos mostra estádios cada vez mais vazios, arenas novas com tetos de zinco e cadeiras de prata, mas com a cara de choro daquela solidão tenaz. Aliás, essas cadeiras com tonalidades diferentes, esse triste mosaico de nuances, já é uma tentativa constrangedora de disfarçar a pouca gente nos campos. Pinta-se o estádio da cor das camisas que o povão usa na tentativa infantil de imitar exatamente ele, o povão que não está lá.

Enquanto isso, do lado de fora, as bilheterias andam às moscas. Os vendedores, que antes distribuíam canhotos e contavam troco o dia todo em suas cabines apertadas, agora jogam paciência no computador enquanto esperam uma alma rica o suficiente para lhes interromper a jogatina.

Vejam, com as novas arenas, a entrada no estádio passou a custar caro como um rim no mercado negro. E, mais até do que isso, os clubes, repletos de marqueteiros modernos e de pensamento europeu, criam campanhas de fidelidade, que viabiliza a entrada de quem vai a todos os jogos, mas impede o torcedor avulso.

 

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São os sócios-torcedores, eles dizem. Mas a verdade é que são apenas sócios, acionistas de um negócio milionário que prefere os dólares vindos da China ao talento nascido no barro.

Mas o fato, amigos, é que até aqui nenhum gesto foi mais aviltante do que este, que acontece bem agora, debaixo das nossas barbas.

Hoje à tarde, Coritiba e Vitória jogam pra decidir quem segue vivo na Copa Sul-Americana. E esse é o problema. Hoje à tarde. Sim, meus caros, na mais franca e tórrida quarta-feira de trabalho, quando o proletariado ainda está enforcado pelos crachás apertados, o Major vai receber um jogo de copa internacional.

Ninguém explica ao certo o motivo do disparate, mas tudo aponta, claro, para interesses comerciais. A Conmebol, que organiza a farra, parece querer transmitir o jogo para outras praças e não quer conflito de horário. E aí, sem nem ficar com as bochechas vermelhas de vergonha, os donos do dinheiro mandam que dois times do povo, duas das mais tradicionais camisas do país, se confrontem com o estádio vazio, carregado apenas de uns homens ricos o bastante que, com o charuto na boca, mandam que suas secretarias remarquem todas as reuniões para amanhã.

E assim, fazendo do futebol um golfe coletivo, vamos todos sucumbindo à sede dos patrões do jogo, que primeiro se adonaram do espetáculo e, agora, sem cerimônia, batem as portas dos estádios na nossa cara.

O futebol está morrendo. E o Major, hoje, vai fazer 90 minutos de silêncio em memória dele.

 

Foto de capa: Leonardo Soares, UOL  |  Foto de apoio: Conexão Jornalismo

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4 pronunciamentos sobre

O galardão dos abastados

  1. Texto coerente, verdadeiro, e muito bem escrito!
    Daqui a alguns anos só veremos futebol na televisão (no caso de hoje, devido ao horário, só o VT mais tarde…), ou através de nossos celulares e tablets.
    Aliás, temo que não apenas o futebol, mas a vida. Ficaremos em nossas cavernas-casas-apartamentos olhando nas paredes (ou na palma da mão) a sombra da vida que se passa do lado de fora, através dos televisores e celulares.
    Sair dessa caverna só para lutar pelo pão nosso de cada dia, nas selvas de pedra das cidades, nos lúgubres porões de uma indústria…
    “Viver” será possível apenas a alguns.
    Saudades de um Mineirão que balançava ao ritmo da torcida do Galo, que com o simples girar das camisas com as mãos por sobre as cabeças.

  2. Verdade, meu Velho.
    O futebol do povão já deixa saudade!
    Obrigada por escrever esse desabafo, assim sabemos que pessoas inspiradoras, como o senhor, pensam igual a nós.
    Abraços.

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