O futebol que sentencia destinos

Nilson perdeu um gol feito na final da Copa do Brasil. Mas só na próxima quarta-feira saberemos quanto isso vai custar a ele

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“Sou um jogador que segura bem a bola e faz o pivô. Sou finalizador. Bom de cabeça, de perna direita, de perna esquerda”, dizia o avante, cheio de confiança, na apresentação ao clube novo.

Seis meses depois, o mesmo cidadão, já sem a mesma confiança, agora cabisbaixo, quase incrédulo, passa pelos microfones da Vila Belmiro no mais completo silêncio. Indagam, mas ele não responde.

Há um motivo: ele acaba de perder um gol acintoso, daqueles que não se pode perder nem em pelada da firma. E há um agravante – ou dois. O equívoco do moço, chamado Nilson, não só aconteceu numa final de Copa do Brasil como ainda calhou de cair aos 48 minutos do segundo tempo.

E aí, notem: não há nada mais cruel do que perder um tento feito no crepúsculo do jogo, porque ali, ao término de tudo, quando os refletores já estão sendo desligados, o avante deixa de ter a oportunidade de ressarcir o prejuízo, de reparar a própria falha.

Assim, Nilson saiu de campo assinando o maior vexame que vimos em muito tempo por estas bandas. E levou consigo o zumbido inflamado da torcida, que sabe o que aquela falha pode ter custado.

Mas, antes de atirarmos as primeiras pedras e levarmos o moço ao cadafalso, meus caros, é preciso guardarmos uma semana de prazo para o tempo cumprir suas travessuras ou instaurar suas branduras.

Na próxima quarta-feira, Santos e Palmeiras voltam a medir forças, desta vez na casa verde. E o que os 90 minutos reservarem para o duelo também reservarão para a vida de Nilson.

 

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E aí, são só dois os caminhos possíveis.

Se o Santos confirmar o placar, o garoto José Nilson dos Santos Silva, de 24 anos, será sumariamente perdoado, permanecendo só nas piadas dos torcedores sarristas e no escárnio jocoso dos inimigos. Será um filho da vergonha, mas nunca um transgressor grave na história do Peixe.

Mas, se pelos planos sórdidos do destino, o Palmeiras virar o jogo e erguer a taça, Nilson será marcado a ferro e fogo, com brasa viva, na memória de todos nós, santistas ou não. Será um facínora obscuro, um vilão pintado a tintas escuras e espessas nos jornais, nas crônicas e nos livros de futebol.

Se calhar do Santos perder por um golzinho só de diferença, então, Nilson será o nosso Judas particular, o seguidor que mudou de lado e que beijou, no silêncio da intimidade, a camisa do inimigo.

Mas é preciso, antes, dar tempo ao tempo. Vamos, então, deixar os roteiristas do futebol matutando com calma, planejando os destinos da bola, colocando num escrutínio maquiavélico a fortuna desse rapaz.

Na próxima quarta-feira veremos, em aflição ou em alívio, que caminho a vida reservou para Nilson.

 

Foto de capa: Ricardo Saibun / Estadão Conteúdo  |  Foto de apoio: Sérgio Barzaghi / Gazeta Press

 

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