O epicentro da agonia

O Couto Pereira hospedou o desespero de Coritiba e Flamengo, os dois times ao sul da tabela

alecsandro

A aflição costuma descansar sobre os ombros de diversas equipes ao longo de um certame extenso, como o Campeonato Brasileiro.

Os quatro últimos na tabela são, logicamente, os mais acossados pelo devorador.

E por vezes, a tabela – esta sórdida tábua de destinos – desenha confrontos tétricos, que joga cara a cara essas equipes embebidas em desespero.

Hoje, Coritiba e Flamengo, soterrados pelo peso de todos os outros competidores, bateram de frente pela 14ª rodada do Nacionalzão. E a Rua Ubaldino do Amaral, 37, foi o epicentro de uma agonia voraz, que podia ser sentida até os mais desertos becos de Iracema, em Roraima.

Era um jogo fundamental, que traria um sopro de vida para o vencedor e uma pá de cólera para o derrotado. Em caso de empate, largas doses de tortura seriam distribuídas a esmo para as duas torcidas, afundadas em angústia.

Ao abrir das cortinas, o Flamengo tratou logo de fazer do Couto o seu Maracanã e se lançou sedutoramente ao ataque, castigando a meta de Vanderlei. E com 15 minutos de match, a vantagem já era carioca – Éverton aproveitou um erro infantil de Baraka, que ainda ninguém sabe exatamente como mas é volante titular do Coritiba, e castigou de pé trocado.

Ensandecido pelo gol, o camisa 22 correu contra as arquibancadas sempre apinhadas do Couto Pereira e provocou acintosamente a torcida da casa. Pelo ira dos gestos, era como se Éverton ainda vestisse secretamente a camisa do Atlético-PR por baixo da blusa flamenguista.

Os jogadores do Coritiba, entorpecidos pela ferroada, reagiram com todo o desdém à hostilidade – ninguém atravessou o campo para peitar o rival, nenhum beque lançou o dedo em riste, volante algum apareceu para marcar território feito um cão de rua. A indiferença à provocação humilhante era o retrato apurado de um escrete absorto em apatia.


 

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Meio cambaleante, meio desfalecido, o Coritiba lembrou que talvez fosse lícito visitar o campo do Flamengo e resolveu apontar seus tortuosos canhões para aquele lado: foram duas bolas trôpegas na trave e nenhuma grande defesa do arqueiro.

E assim, o jogo permaneceu morno, sem grande vontade dos cariocas em aumentarem a vantagem nem qualquer prova de interesse na vitória da parte paranaense.

Ao fim dos 90 minutos, o Flamengo tinha sua primeira vitória longe de casa enquanto os mandantes colecionavam mais um fracasso hediondo diante daquela torcida que, pelo espetáculo que patrocina sempre, não merece um onze tão franzino e covarde.

Em 7 jogos em casa neste Brasileirão, o Coritiba ainda desconhece os prazeres da vitória e experimentou um único e medíocre balançar de redes, nascido de um pênalti.

O desespero, que marcou visita para a rua Ubaldino do Amaral, gostou da hospedaria e decretou que enquanto a cama for quente e o barulho for pouco ele fica.

 

Fotos: Heuler Andrey/Getty Images

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