O dérbi de 140 minutos

O clássico entre Flamengo e Vasco teve não dois, mas três tempos: um para cada time e outro só para a chuva

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Quando Eurico Miranda voltou ao Vasco da Gama depois de uma temporada prenhe de charuto e pôquer na sala da oposição, disse que o campeonato Carioca valia mais do que a Copa Libertadores da América.

Trata-se de um arroubo, é claro, mas posso dizer que entendo o que ele disse – ou quis dizer.

O Carioca – ou os estaduais, de modo geral – não é maior que a Libertadores, mas é mais íntimo. É um certame mais pessoal, que confronta inimigos chegados, que reparte a cidade numa discussão visceral e faz vizinhos cerrarem os dentes na hora do bom dia.

A copa continental tem prestígio, coleciona fama e reputação, mas os campeonatos de estado têm estreiteza, têm o risco e a graça de perder ou ganhar de quem vive do outro lado da cerca. Pela proximidade e coexistência dos maiores rivais, os estaduais acendem as mais delirantes conversas de boteco no dia seguinte. Perder para o Deportivo Táchira na Copa não faz o cidadão evitar pegar um táxi para o trabalho; perder para o Flamengo no estadual, faz.

Talvez por isso, por essa cólera desvairada, o povão continua sendo arrastado magneticamente aos campos, notadamente nos dias de clássico, quando a pólvora da desavença estoura.

É como se todo torcedor fosse, de repente, o mais canalha mentiroso. Diz que não gosta do certame, que não tem charme, que não vale nada, que todo jogo é amistoso, mas na hora da pugna invade os estádios, arrebenta os portões e empenha os pulmões a serviço do seu time de coração.

Na última Libertadores da América, o Flamengo levou, em média, 41.922 pessoas  ao Maracanã. Domingo, no meio de uma chuva de canivetes e facas Ginsu, o rubro-negro arrastou, junto com o Vasco da Gama, 56 mil almas até o estádio Mário Filho.

É claro que a comparação é cafajeste: se tirarmos as médias dos dois campeonatos, dá Libertadores, fácil, fácil. Mas, enfim, isso tudo é devaneio. Vamos ao clássico, ao jogo, à chuva.

 

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Convém dizer que o embate já seria belo pelas arquibancadas em chamas, mas ficou ainda mais colossal pelo fato ímpar de não dois tempos de 45 minutos, como sempre, mas três, porque aquela Cantareira toda que caiu, aquele meio-irmão do dilúvio, acabou prorrogando o clássico por um tempo inteiro, mais os acréscimos.

Notem, a chuva não foi uma pausa ou um hiato para o jogo – foi um prolongamento. Porque ao longo daquela quase uma hora, o jogo não ficou parado, como contam os jornais. Ao contrário, foi ali que o Maracanã mais pulsou, posto que é quando a bola deixa de rolar que as provocações mais escorrem pelos lábios, num duelo recôndito, de torcida para torcida, na unidade da mesma língua, do mesmo sotaque.

Os vascaínos, que a essa altura perdiam o jogo por um a zero, esperavam o cancelamento da partida – que recomeçaria em 0 a 0 em uma nova data –, enquanto os flamenguistas, risonhos na frente, bradavam pela continuidade, lembrando que antes de Futebol aqueles eram clubes de regatas e que, portanto, água nenhuma pararia seus ímpetos.

E assim, por 50 minutos, a multidão do Maracanã teve o prazer de sorver um pouco mais desse dérbi, como fosse o chorinho que o garçom serve, de bom grade, na última dose de uísque antes do bar fechar.

O difícil, agora, vai ser acompanhar o próximo Flamengo vs Vasco da Gama e perceber que o clássico, dentro das quatro linhas, não dura mais que 90 minutos.

 

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Foto de capa: Paulo Campos / AGIF / Gazeta Press  |  Foto de apoio: Jorge Rodrigues / Agência Eleven / Gazeta Press

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