O circo dentro do pão

Leminski faria 70 anos hoje. E o Velho confabula: o que ele diria sobre o nosso Futebol se estivesse vivo?

leminski

 

Paulo Leminski era o mais febril e efusivo e inflamado e ruidoso poeta destas terras das araucárias.

Mas nos deixou pouco – ou quase nada – sobre o Futebol.

Torcia sem grande entusiasmo pelo Atlético-PR, mas escreveu uma única crônica sobre a bola, ironicamente para saudar o Coritiba, campeão do Brasil:

E, guiado por meu atrapalhado coração atleticano, fui até o mastro no meu jardim onde tremula o pavilhão rubro-negro e fiz descer a bandeira de meus sonhos. E foi com um misto de pesar e jubilo que pus em seu lugar e hasteei as campeoníssimas cores do nosso arquiadversario, hoje, aqui e agora, para sempre Campeão Brasileiro de 1985.

Leminski não teve tempo de ver o seu time alcançar o mesmo feito, em 2001, com um escrete veloz como um haikai. Nem teve paciência pra ficar entre nós até agora, louvando as graças e chorando as derrotas doídas do nosso Futebol.

Mas o Velho gosta de imaginar o que dispararia ele em sua Remington depois de 1989.

Então, cá vão alguns versos clássicos do poeta, adaptados a contextos do nosso Futebol depois de sua morte.

É a mais pura ficção. É o que o Velho pensa que ele pudesse, talvez, ter dito sobre os momentos mais salientes dos nossos times.

 

 

1995 :: O SONHO DA NOVA BAIXADA

 

nada tão comum

que não possa chamá-lo

meu

 

nada tão meu

que não possa dizê-lo

nosso

 

nada tão mole

que não possa dizê–lo

osso

 

nada tão duro

que não possa dizer

posso

 

 

1997 :: O PENTACAMPEONATO DO PARANÁ

 

peguei as cinco estrelas

do céu uma a uma

elas estrelas não vieram

mas na minha mão

todas elas

ainda me perfuma

 

 

1998 :: DEPOIS DE ABRIR 2 A ZERO, CORITIBA EMPATA COM A PORTUGUESA E PERDE VAGA NA SEMI DO BRASILEIRÃO

 

ave a raiva desta noite

a baita lasca fúria abrupta

louca besta vaca solta

ruiva luz que contra o dia

tanto e tarde madrugastes

 

morra a calma desta tarde

morra em outro

enfim, mais seda

a morte, essa fraude,

quando próspera

 

viva e morra sobretudo

este dia, metal vil,

surdo, cego e mudo,

nele tudo foi e, se ser foi tudo,

já nem tudo nem sei

se vai saber a primavera

ou se um dia saberei

que nem eu saber nem ser nem era

 

 

2002 :: GIOVANI GIONÉDIS CHEGA À PRESIDÊNCIA DO CORITIBA

 

eu queria tanto

ser um poeta maldito

a massa sofrendo

enquanto eu profundo medito

 

eu queria tanto

ser um poeta social

rosto queimando

pelo hálito das multidões

 

em vez

olha eu aqui

pondo sal

nesta sopa rala

que mal vai dar para dois

 

 

2004 :: DEPOIS DO NEFASTO ATLÉTICO-PR 3 x 3 GRÊMIO, EM ERECHIM

 

por um fio

o fio foi-se

o fio da foice

 

 

2005 :: A QUASE CONQUISTA DA LIBERTADORES PELO ATLÉTICO-PR

 

sossegue coração

ainda não é agora

a confusão prossegue

sonhos a fora

 

calma calma

logo mais a gente goza

perto do osso

a carne é mais gostosa

 

 

2006 :: A PASSAGEM FUGAZ DE LOTHAR MATTHÄUS NO COMANDO DO ATLÉTICO-PR

 

Nada tenho.

Nada me pode ser tirado.

Eu sou o ex-estranho,

o que veio sem ser chamado

e, gato, se foi,

sem fazer nenhum ruído

 

 

2007 :: A PRIMEIRA E ÚNICA PARTICIPAÇÃO DO PARANÁ CLUBE NA LIBERTADORES

 

Uma vida é curta

para mais de um sonho

 

 

2010 :: SOBRE O CORITIBA JOGANDO LONGE DO COUTO DEPOIS DA CONTENDA DE 2009

 

Viajar me deixa

a alma rasa,

perto de tudo,

longe de casa.

 

Em casa, estava a vida,

aquela que, na viagem,

viajava, bela

e adormecida.

 

A vida viajava

mas não viajava eu,

que toda viagem

é feita só de partida.

 

leminski_recortadp

 

2011 :: ATLÉTICO-PR REBAIXADO À SÉRIE B

 

quem me dera um abutre

pra devorar meu coração!

naco de carne crua

comida de pé no balcão!

 

quem me dera um apache

pra colher meu escalpo!

que desta vez não escape

nenhum disfarce!

 

tomara que um furacão

caia sobre meu navio!

que nenhum deus nem dragão

possa ser meu alívio!

 

 

2012 :: ATLÉTICO-PR VOLTA À SÉRIE A

 

meu coração de polaco voltou

coração que meu avô

trouxe de longe pra mim

um coração esmagado

um coração pisoteado

um coração de poeta

 

 

2012 :: ALEX VOLTA AO CORITIBA

 

lendas vindas

das terras lindas

de orientes findos

 

me façam feliz

feito esta vida não faz

 

 

2012 :: PETRAGLIA VOLTA AO COMANDO DO ATLÉTICO-PR

 

amei em cheio

meio amei-o

meio não amei-o

 

 

2012 :: CORITIBA É VICE PELA SEGUNDA VEZ SEGUIDA DA COPA DO BRASIL

 

pelos caminhos que ando

um dia vai ser

só não sei quando

 

 

2013 :: SOBRE O PARANÁ CLUBE E O SEU DESEJO ARDENTE DE VOLTAR À SÉRIE A

 

objeto

do meu mais desesperado desejo

não seja aquilo

por quem ardo e não vejo

 

seja a estrela que me beija

oriente que me reja

azul amor beleza

 

faça qualquer coisa

mas pelo amor de deus

ou de nós dois

seja

 

 

2013 :: O ATLÉTICO-PR SÓ QUERIA NÃO CAIR – E ACABOU CLASSIFICANDO PARA A LIBERTADORES

 

nada foi

feito o sonhado

mas foi bem-vindo

feito tudo

fosse lindo

 

 

2014 :: SOBRE A TORCIDA DO PARANÁ CADA VEZ MAIS DISTANTE DA VILA CAPANEMA

 

amarga mágoa

o pobre pranto tem

 

por que cargas-d’água

chove tanto

 

e você não vem?

 

 

2014 :: SOBRE O PASSADO RECENTE E O PERICLITANTE PRESENTE DO CORITIBA

 

minha primeira queda

não abriu o paraquedas

 

daí passeio feito uma pedra

pra minha segunda queda

 

da segunda à terceira queda

foi um pulo que é uma seda

 

nisso uma quinta queda

pega a quarta e arremeda

 

na sexta continuei caindo

agora com licença

mais um abismo vem vindo

 

 

2014 :: O PARANÁ CLUBE, HOJE

 

o amor, esse sufoco,

agora há pouco era muito,

agora, apenas um sopro

 

ah, troço de louco,

corações trocando rosas,

e socos

 

 

2014 :: SOBRE OS DIAS DE RECLUSÃO DO ATLÉTICO-PR COM A REFORMA DA BAIXADA E AS PERDAS DE MANDO

 

você está tão longe

que às vezes penso

que nem existo

 

nem fale em amor

que amor é isto

 

 

 

bigode_leminski

 

 

 

 

PartilheTweet about this on TwitterShare on Facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *