Nós, 70 mil em desgosto

A torcida do Flamengo patrocinou a mais bela festa das arquibancadas brasileiras em 2015, mas saiu triste do Mané Garrincha

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A tabela é uma sórdida arquiteta de destinos. Sempre irônica e quase sempre risonha, ela parece escolher o momento mais sacana pra jogar, cara a cara, um time contra o outro.

Ontem foi assim.

O Flamengo vinha de 6 vitórias consecutivas e andava nas nuvens, sorvendo os prazeres do G4 e mirando, mesmo que em segredo, o posto mais alto da tábua, onde dorme o Corinthians. Do outro lado da cancha estava o Coritiba, machucado feito cão sem dono, chafurdando pelos porões do campeonato, procurando um pontinho que lhe aplacasse a fome.

Era jogo ganho, diziam por aí. E a rodada era perfeita: os paulistas da ponta haviam perdido, como havia sucumbido também o Galo, outro concorrente direto aos prazeres da zona da Libertadores.

Acontece que a tabela, como sabemos, tem aquele riso estridente da hiena. E, carregada de chacota, marcou o jogo para Brasília, onde 70 mil candangos que escolheram torcer pelo escrete carioca lotariam o estádio Mané Garrincha e ajudariam a criar o clima fatal de oba-oba, de jogo festivo, de vitória antecipada.

Assim, com os torcedores cautos deixados no Rio de Janeiro – porque esses, contumazes frequentadores do Maracanã, que vivem e respiram Flamengo, esses sabem bem que não existe jogo fácil, especialmente se vier debaixo da máscara de um adversário frágil –, os candangos festejaram sobremaneira aquilo que lhes era próprio: o reencontro febril com o time.

 

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E a festa foi arrebatadora. Setenta mil almas cantantes e saudosas enfeitaram o estádio que erguemos em homenagem a Garrincha. E fizeram um sarau esplêndido, patrocinando um coral ensurdecedor e emocionante. Pais eram vistos por todos os lados erguendo seus filhos no colo e ensinando os cânticos e apontando a grama e gritando a plenos pulmões que aquilo dali era o Mengo e aquela de lá era a Magnética. E o campo foi, nesse furor, a mais obtusa festa do futebol vista essa ano.

Mas ali embaixo, no prelo, onde a carícia não reina e a farra é colhida como se fosse canela ou tornozelo, o Coritiba tratou de ferir os donos da festa logo cedo, com um gol de pênalti de Kléber, o Gladiador, e depois com outro tento, dessa vez do brasiliense Henrique Almeida, que viu aquela sua gente toda esmorecer no bico da sua chuteira. E os suspiros dos seus cidadãos talvez tenha mexido com o garoto de tal forma que ele fez questão, minutos depois, de abortar um gol certo, que daria à vantagem do Coxa um ar de passeio, de goleada mansa.

Ficou assim estabelecido o dois a zero e nada mais. E mansamente, o povão rubro-negro, pouco dado a estádios, foi sendo forjado no ferro e no fogo da derrota, descobrindo que o futebol nem sempre é a festa que se supõe.

Longe dali, a gente sofrida que costuma enfeitar o Major Antônio Couto Pereira foi se entregando aos poucos a um riso fácil, que de tão doce parecia mentira.

Mas eis que, no fim, tudo era verdade. E o Flamengo, que esperava encontrar um moribundo, topou contra um muro, um escrete de fibra, com as veias fazendo as vezes dos cadarços e sangue derramando por cada costura da camisa. E o Mané Garrincha, antes todo vermelho e preto, se dobrou aos encantos da alegria que nascia em verde e branco. E assim, uma tropa de onze combatentes e uma torcida miúda calaram o mais gigantesco público do Campeonato Brasileiro.

Eram 70 almas felizes para 70 mil em desgosto.

 

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Foto de capa: Adalberto Marques / Lancepress |  Foto de apoio: Jorge William / O Globo

 

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