No meio do redemoinho

Renato Cajá é o nosso Riobaldo, o herói de Guimarães Rosa que procura coragem na encruzilhada pra brigar a briga boa

folhapress_caja

 

Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvore, no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser — se viu —; e com máscara de cachorro.

Renato Cajá é uma espécie de Riobaldo do nosso Futebol. Cangaceiro brabo no jeito e ríspido ao resolver qualquer entrevero – cismou de não gostar, já desce um dose de força na contramão de quem vem lá.

É assim, meio homem, meio invenção de Guimarães Rosa, que ele começou a se instalar feito posseiro no coração de cada um.

Com aquela perna esquerda, que lembra um bacamarte assanhado, o cidadão anda fazendo lei como quer pelas campinas desse Brasilzão. Começou salvando a Ponte – o bezerro branco que inaugura a epopeia de Riobaldo – e agora o bezerro tá salvo, no solo firme da Série A.

Mas acontece que Cajá gostou da balbúrdia e anda cavalgando decidido com seus jagunços pelos terrenos incertos, distribuindo justiça com a peixeira sempre à destra.

Na encruzilhada, achou coragem pra se meter com bicho brabo e derrubar besta grande.

E nas quatro rodadas de Brasileirão até aqui, o rebento de Cajazeiro – daí o Cajá – calhou de comer coração de onça pintada, ainda quente e cru, fazendo o escrete passar pelo ritual que faz curumim virar cangaceiro, e saiu espalhando pavor pela cancha e remindo a Associação Atlética Ponte Preta.

Hoje, o onze campineiro mete medo por onde vai, matando à mão curta, à ponta de faca.

Começou o rebuliço na Arena do Grêmio, onde tudo reluz feito ouro e jagunço não se cria. Cajá e sua trupe foram logo saqueados, tomando dois sacodes e, só então, sentiram pulsar o sangue quente de capanga e resolveram descer à pugna com o jeito e a bravura que se deve, empatando o jogo com dois tentos malvados, um anotado de longe, pelo próprio Cajá, que só não faz justiça com as mãos porque foi abençoado com os pés.

 

rodrigovillalba_caja

 

Ali já se via que com essa Ponte não tem tiro de misericórdia nem bala na cabeça pra morrer ligeiro – tem é requinte de crueldade, que é pra ver o cabra expirar devagarinho na agonia do pau de sebo, porque gol tem que ser bonito, que é pra doer no dia seguinte. Aquele tento que machuca o adversário mas que, mesmo assim, dada a beleza do episódio, o sujeito vai pra frente da televisão no dia seguinte, só pra admirar a morte dele mesmo.

Pois divagamos. Voltemos ao cangaceiro.

A vítima mais recente do varão foi Danilo, o arqueiro da Chapecoense, que, distraído foi andar fora da linha justo contra o homem.

Foi no segundo tempo na contenda do Moisés Lucarelli. Vazio, o campo era o cenário perfeito pro crime, que é quando ninguém tá vendo nada. Sucede que a bola sobrou pra Cajá na meia-quadra e o cidadão espiou o guarda-redes passeando pelo pasto, longe do rebanho. Não teve dúvida: sacou a carabina e deu um tiro longo, desses que a bala viaja até cansar, bem na mira do cetro, fazendo passarinho deitar.

Tava anotado ali, sem que ninguém visse, mais um disparate hediondo, de maltratar goleiro e humilhar quem vive de servir e proteger. Foi um tento quase do meio de campo, uma viagem longa que homem só faz montado em burro. Atravessou a cancha e morreu, nervosa e crespa, no fundo do cordel.

O futebol não é muito dado à justiça, mas Cajá é.

Assim, devagarinho, tiro a tiro, rédea no braço, ele vem estabelecendo uma igualdade que só nasce das mãos de quem está disposto a se sujar por um naco de equivalência.

Porque na vida de jagunço a colheita é comum, mas o capinar é sozinho.

E Renato Cajá, nosso Riobaldo, segue montado, posto que é longa a travessia.

 

PartilheTweet about this on TwitterShare on Facebook

4 pronunciamentos sobre

No meio do redemoinho

  1. Sorte que poucos são os que conhecem realmente bons jogadores, por isso o Cajá continuará a pelejar junto com a Ponte Preta por dias melhores. Com sua carabina calibrada, os grandes jogos que todo pontepretano já esperavam do Cajá serão notícia nos quatro cantos do mundo da bola. Parabéns pelo ótimo texto.

  2. Bela homenagem ao Renato Cajá que é de Cajazeiras, sertão paraibano e que é também cidade natal de Azul, goleiro do Vasco no showbol.

  3. Parabéns pelo belo texto; merecida homenagem não só para o grande jogador Renato Caja, como também para a sofrida mais reluzente torcida da gloriosa Ponte Preta, que Deus permita que nosso justiceiro permaneça na macaca querida e que nenhum outro macaco venha tira-lo de nos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *