No meio do inferno, um sonho bom

Aquela vitória sobre o Santos não foi o começo da redenção – foi uma mentirinha, um engodo do destino

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Quando Aylon estufou o peito debaixo da baliza do Beira-Rio pra empurrar a bola espalmada por Vanderlei e marcar o gol da vitória do Internacional sobre o Santos, algumas rodadas atrás, uma espessa névoa de dúvida e incerteza pairou sobre o estádio. Enquanto berravam de júbilo e abraçavam estranhos na arquibancada, os colorados se punham a pensar se aquele deleite seria mesmo o fim do calvário ou se era um engodo do destino, uma mentirinha sórdida contada no meio da tabela.

Pois eis que agora, já cedo, só duas rodadas depois daquele jogo, a revelação vem à tona: a vitória sobre o Peixe foi um sonho bom nascido de um cochilo no meio do inferno.

Agora, o Internacional acordou. E está no miolo do Hades, com aquele vento quente trazendo o cheiro inconfundível do enxofre. O José Pinheiro Borda, antes banhado pelo Guaíba, agora fica no Rio Estige, e a barca colorada, embora traga Celso Roth na casamata – o paladino inconstante de Porto Alegre –, é empurrado por Caronte, que sem qualquer dó rema cada vez mais fundo nas águas rumo ao tártaro.

Depois daquela vitória, veio só desdita. O time encarou o Atlético-PR, outro time embebido em crise, e sucumbiu na Arena da Baixada. E então, ontem, recebeu o Vitória, vizinho de porta, outro morador da zona da aflição, e novamente saiu derrotado. E pior, com notas amargas da mais fina ironia: perdeu justo para Argel Fucks, o antigo comandante da nau vermelha.

Dos últimos 17 jogos, o Internacional venceu um. Este próprio, contra o Santos, facilitado por um expulsão bisonha do Lucas Lima ainda no primeiro tempo, nunca nos custa lembrar. Notem, senhores, que isso é quase um turno inteiro de desventuras em série. Mais dois tropeços e o Internacional terá cedido pontos para todos os times, menos um, justo o Peixe, de quem venceu os dois confrontos.

Uma rápida olhada no histórico do pontos corridos revela que nenhum time ficou incólume depois de tamanha temporada de seca. Mas o Inter vive uma realidade paralela, que, ao que parece, jamais se aplicou a outros pretendentes do Brasileirão: mesmo nessa draga tenebrosa, o time viveu poucas rodadas na zona da aflição e está a dois pontos de sair dela.

É que o Inter guardou uma boa gordurinha no começo do certame. Até líder foi no comecinho, dividindo os louros com o Grêmio, outro que está rangendo os dentes na trincheira procurando o caminho de casa. E foram aquele pontos acumulados cedo, antes da 9ª rodada, quando o sortilégio começou, que estão permitindo o Inter balbuciar ainda, meio morto, mas, sobretudo, meio vivo.

 

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Se o Internacional não beijar a lona desta vez, neste ano da graça de 2016, me parece justo dizer que jamais cairá, porque o esforço é grande e sem medida. O elenco, que pelos nomes impressiona, anda jogando um futebolzinho de repartição pública, cheio de burocracia e indolência. Mas isso ainda não é o mais grave, porque o problema maior parece vir mesmo dos bastidores, de um conjunto trincado, uma administração que troca as mãos pelos pés, que num dia sonha com o garbo de Falcão para já no outro delirar com a aspereza de Roth.

Mas mais sério ainda parecem ser as vicissitudes do caminho, o roteiro que está escrito para o time da Padre Cacique.

Ninguém, na véspera, tem acesso aos scripts do futebol, mas é cada vez mais evidente que o cidadão que os escreve escolheu o Inter para padecer por esses dias. Nada dá certo nos jogos do time, que parece ter comprado um lote industrial de revés, urucubaca e outras formas de infortúnio pra viagem, carregando no lombo, envergando a coluna e machucando a honra.

Só o tempo vai dizer o que está guardado para o Sport Club Internacional. Mas, por ora, sabemos que o que time viu de bom até aqui aconteceu no sonho de uma siesta tirada no meio da baderna.

 

Foto de capa: Félix Zucco, agência RBS  |  Foto de apoio: Ricardo Giusti, Correio do Povo

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3 pronunciamentos sobre

No meio do inferno, um sonho bom

  1. Repito aqui a palavra que está na mente de 10 em 10 colorados, nesse momento:

    “Será?”.

    Texto maravilhoso, Velho. Vim aqui por indicação da Trivela, e daqui não saio mais!

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