No Horto, contra Fred e contra todos

Estreia, cinco gols, quatro expulsões e um pouco mais: Atlético-MG e Cruzeiro travaram um dérbi febril no domingo

washington_alves_lightpress

 

Nenhum cidadão com um naco de juízo vai para o estádio seguro e confiante em dia de clássico. Mas ontem, o torcedor do Atlético-MG encheu o peito de um otimismo indecente e foi para o Horto com mais convicção do que o normal, deixando o pessimismo – alicerce fundamental de todo cauto – esquecido num beco a caminho do campo.

Ora, tamanha expectativa era justificável, quase até natural: Fred, um dos mais certeiros homens de frente do futebol brasileiro, faria sua estreia com a camisa noir do Galo. Não bastasse isso, o adversário, sempre fulminante nos Brasileirões, havia começado o certame deste ano de forma tímida e desencontrada, perdendo jogos à revelia, experimentando treinador novo, procurando padrão de jogo, enfim, sofrendo as mazelas do fracasso.

A vitória, claro, não era certa, mas o jogo prometia trazer numa bandeja de prata todos os sonhos acumulados da torcida do Atlético.

Acontece que o futebol, esse canalha, adora diluir essas pequenas certezas que a gente cultiva como se fossem filhos. E ontem, enquanto torcedores do Galo iam para o Horto, descendo a Pitangui aos assobios e imaginando como seria doce a vida com Fred, Pratto e Robinho no comando de ataque, o acaso escrevia as linhas mais sacanas e carregadas do artifício mais velho dos roteiros do futebol: a quebra de expectativa.

E tudo começou deliciosamente bem para o escrete preto e branco. Aos 13 minutos, Rafael Carioca cobrou uma falta rasteira, que desviou na parede humana e ludibriou Fábio, adoçando ainda mais o domingo da massa.

Tudo corria deliciosamente bem e o riso vinha aos borbotões no Independência.

Mas o Atlético esqueceu de combinar o baile com o Cruzeiro. E a Raposa, mordida, cresceu no jogo e partiu pra cima. Arrascaeta, discreto desde que chegou, se agigantou em campo, pegou a batuta e começou a reger uma orquestra que até então parecia não ser mais que uma banda escolar. E distribuiu fartas bolas e muitos prazeres cancha adentro. Numa dessas investidas, ainda aos 19 do primeiro tempo, o uruguaio encontrou Alisson correndo por dentro e tocou pra confirmar o empate.

O que se seguiu no primeiro tempo foi um embate febril e acirrado, com os 22 homens disputando a bola como se fosse um prato de comida – ou, nesse frio, como se fosse um cachecol.

E aos poucos, a certeza atleticana foi virando poeira e o riso foi estagnando até virar um soluço.

 

fred_edesio_ferreira_em_dapress

 

Veio o segundo tempo e enquanto os arquibaldos ainda voltavam aos seus lugares com pipoca nas mãos, Arrascaeta recebia dentro da área e driblava Gabriel com um único e tórrido toque de calcanhar, deixando o guri perdido dentro da sua própria área, sem pai nem mãe, com cara de choro e bico armado pro berreiro. O uruguaio, então, chutou contra Victor, que deu o rebote nos pés ligeiros de Riascos, que deixava de ser refugo passava a ser o novo Tiradentes.

A gigante torcida azul, reduzida a poucas centenas no estádio, estourou numa celebração imensa, que só foi parar quando Fred, o moço sobre quem recaía todo e cada olhar, empurrou a bola pra dentro num carrinho e deu números iguais à partida.

E o Horto, então, era pura frustração: do lado azul, porque perdera a vantagem construída; do lado alvinegro, porque o empate era pouco pelas pretensões do povão, que vinha de sonhos enormes.

Foi então, no meio da tristeza geral, que Bruno Rodrigo mergulhou sozinho no meio da área, dando um peixinho acrobático e triste de tão sozinho que o moço estava. A essa altura, os zagueiros do Atlético-MG assistiam a tudo de dentro do campo, como se uma modalidade nova de sócio-torcedor tivesse sido lançada pelo Nepomuceno horas antes da partida. A careca do beque cruzeirense jogou a bola com violência contra as bochechas da rede de Victor e deu números finais à partida.

O Independência, sempre uma fortaleza atleticana, se converteu na mais pura cólera, e chinelos, radinhos e outras armas improvisadas foram arremessadas à procura de uma cabeça, amiga ou inimiga – a essa hora só importava que aterrissassem em algum lugar que não fosse a grama, porque alguém tinha que ser culpado pela tragédia.

E a Raposa, vendo o circo em chamas, tratou de entrar na farra distribuindo pontapés nas canelas alheias até ter só 8 jogadores em campo. E foram estes parcos homens, estes últimos oito soldados que aguentaram a pressão final e levaram o Cruzeiro à graça maior, calando o Horto, ofuscando Fred e ultrapassando o Atlético-MG na tabela – tudo ao mesmo tempo, tudo em um só jogo.

 

Relembre: OS 50 ANOS DO MINEIRÃO

 

Foto de capa: Washington Alves / Light Press  |  Foto de apoio: Fred Edésio Ferreira / EM / DA Press

PartilheTweet about this on TwitterShare on Facebook

4 pronunciamentos sobre

No Horto, contra Fred e contra todos

  1. “Arrascaeta recebia dentro da área e driblava Gabriel com um único e tórrido toque de calcanhar, deixando o guri perdido dentro da sua própria área, sem pai nem mãe, com cara de choro e bico armado pro berreiro”. Demais!

  2. Demais! “Arrascaeta recebia dentro da área e driblava Gabriel com um único e tórrido toque de calcanhar, deixando o guri perdido dentro da sua própria área, sem pai nem mãe, com cara de choro e bico armado pro berreiro.”

  3. Você nunca me decepciona, não é, meu VelhoCronista? Como sempre, um texto perfeito, traduzindo o tobogã de emoções que foi este clássico. Uma vitória acachapante,com autoridade, para lavar a alma.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *