Não sabemos amar dois Valdívias

Quanto mais o avante do Inter joga, mais a gente se esquece do ídolo do Palmeiras

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Wanderson Ferreira de Oliveira ainda jogava bola descalço pelos campinhos de terra do Mato Grosso quando alguém com 12 graus de miopia viu naquela carcaça magra e na peruca crespa alguma semelhança com Valdívia, o astro do Palmeiras.

Assim, de folia, sem imaginar que um dia o apelido traria reboliço, Wanderson virou Valdívia.

E zombeteiro, o menino começou a fazer miséria com os beques inimigos, ganhando a simpatia da gente de Rondonópolis.

O tempo corre e, de repente, o povo da cidade já não tem mais dúvidas: é Valdívia pelo que joga, e não pelo que parece.

E assim ele vai ganhando respeito por aquela terra.

Viaja pra São Paulo pra jogar a maior competição júnior do país e é visto fazendo malvadezas. Anota 8 gols, dá passes, deita zagueiros.

O Internacional gosta do que vê e leva o menino para o Beira-Rio – prefere ser cúmplice a vítima.

No sul, aos poucos, o rapaz vai mostrando que faz jus ao apelido.

Enquanto isso, longe dali, no caminho contrário da ascensão, na contramão da graça e da popularidade, vem outro Valdívia, o original. Bengala numa mão, compressa de gelo na outra, o chileno manquitola – tem cada vez menos prestígio. Acumula mais suspeitos do que adoradores.

Mas El Mago ainda leva muita gente na flauta. Entre um chute no vácuo e outro, vai ludibriando uns beques e outros tantos torcedores, que insistem que ele é o craque que veio para redimir Ademir da Guia, para nos fazer esquecer de Alex.

E assim, jogando uma e descansando cinco, Jorgito segue no colo do povo, enrolado em papel bolha.

Mas o outro Valdívia começa a incomodar.


 

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A cada gol que o garoto análogo anota no Rio Grande, o genuíno sente calafrios em São Paulo. Mesmo quieto, sem entrar em campo, o chileno é acossado. Porque a comparação do nome é inevitável.

Todo mundo quer saber qual é melhor, se o original ou se o paralelo.

E ontem, quando o avante do Inter estourou os barbantes do Atlético-MG logo no seu primeiríssimo toque na bola, o palmeirense, que tirava uma siesta mansa em algum DM da vida, foi atormentado por mil vozes crespas que o chamavam para o banco dos réus, que o acusavam de não ter a mesma estrela, o mesmo carisma, o mesmo jeito patife.

Agora, o gringo, que sempre foi absoluto, tem que dividir seu nome no jornal. Valdívia, de repente, aparece entre vírgulas, tendo que explicar se é esse ou aquele, se é nosso ou se é deles, se traja verde ou se veste vermelho.

E assim, aos poucos, todo melancolia, o chileno vai perdendo o próprio nome por usucapião. Veja, não é um terreno, uma propriedade, uma fazenda em Valparaíso – é um nome. Um nome de batismo, que era só dele e de sua gente, por direito e por decreto e que agora, devagarinho, começa a ser anotado na identidade de um sujeito chamado Wanderson. Um sujeito que parece levar isso tudo muito mais a sério, que parece querer marcar a história do Internacional, porque joga com gana, se apresenta com garra e vontade quando desce à luta, posto que nos pampas ninguém se cria dando chute ao vento e cultivando canelinha de louça.

Não sabemos conviver com dois Valdívias.

É preciso escolhermos um para amar. E, ao que parece, no silêncio de cada um, todos nós já fizemos isso.

 

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Foto de capa: Alexandre Lops / Divulgação: Internacional Sport Club

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