Não existe idade para jogar um Atletiba

A rigor, pouco importa se são meninos ou homens – o que conta são as camisas que eles vestem

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Coube que depois de 90 anos da mais sórdida contenda e malquerença, Coritiba e Atlético-PR inauguraram um novo tempo. Uma era em que as desavenças dão lugar a confidências e pontapés viram abraços.

Quem estava vivo na última semana viu as correspondências simpáticas trocadas pelos jornais, pela grande rede, pela televisão.

Mas isso, claro, aconteceu nos bastidores da bola, onde o ar-condicionado é abundante e todo mundo veste gravata.

Porque no pasto, onde a bola rola, a galhardia não se cria. Entre bicudas e carrinhos, só cabe uma fatia de fair-play, posto que vencer é fundamental e mostrar fibra é uma exigência dos arquibaldos.

O problema é o que esquadrão atleticano, quase todo formado por moços inocentes como um filme de Chaplin, não foram avisados que toda aquela farra e fidalguia ficavam do lado de fora da cancha.

Assim, o escrete vermelho e preto entrou em campo cantarolando, como se o duelo ali fosse pra ver quem conta mais piada, enquanto o time verde e branco, calejado pela vida, foi ao Couto com a cólera escorrendo pela boca.

E com esse paradoxo instaurado, o Coritiba precisou só de 9 minutos para esquentar o lombo atleticano com uma cintada malcriada de Rafhael Lucas, que também é sub-23. E foram só outros 9 minutos até o Coxa anotar o segundo tento, com Alan Santos (outro sub-23), e apresentar toda e cada faceta da frustração para os jovens atleticanos, que a essa altura já tinham o semblante sofrido de quem perdeu o último ônibus de volta pra casa.

 

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O primeiro tempo foi um passeio sem precedentes na história recente do Atletiba. Foram dois, mas poderiam ter sido 4.

Veio, então, o intervalo. E Marcelo Vilhena, comandante rubro-negro, reuniu os jovens para, enfim, contar que aquele não era o amistoso que o clima pré-jogo fazia pensar e que ninguém desce à grama do Couto Pereira com um sorriso na cara, ainda mais num clássico colossal onde a hostilidade brota feito erva daninha.

E foi só subirem as escadas do vestiário número 2 do Major para que os garotos mostrassem outra postura: já não havia nenhum dente à mostra, nem cordialidade na figura de qualquer jogador. O Atlético entrou em campo para o clássico com uma hora de atraso, talvez perdido com o fim do horário de verão.

O Coritiba, percebendo as onze substituições – não de jogadores, mas de alma, de espírito e de conduta –, deixou também a pilhéria de lado e se fechou, sabendo que qualquer gol do adversário inflamaria por demais a volúpia inimiga, ficando difícil de frear o ímpeto pelo empate.

E o jogo, dali em diante, foi mais igual. E embora morno, criado na lombeira e nos bocejos de um domingo, também foi mais justo com o povão das arquibancadas, que nunca querem saber se ali tem meninos ou homens, crianças ou velhos, mas somente dois pesados uniformes num antagonismo secular.

Porque a rigor, meus amigos, o Atletiba não aceita a prerrogativa do sub-23, da inexperiência ou do time B – num jogo dessa estirpe, o choque não é de jogadores ou de homens, é de camisas.

 

ATLETIBA: O CLÁSSICO ENTRE OS MAIORES CLÁSSICOS DO MUNDO

 

Foto de capa: Hugo Harada / Gazeta do Povo  |  Foto de apoio: Geraldo Bubiniak / futebolparanaense.net

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2 pronunciamentos sobre

Não existe idade para jogar um Atletiba

  1. Mais um texto sensacional do grande Velho!!!

    Parabéns pelas belas crônicas…

    Primeira vez que comento, mas já acompanho há tempo e está cada vez melhor.

    Sucesso.

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