Nada será fácil para quem veste essa camisa

O Clube Atlético Mineiro desenvolveu um fascínio pela aflição, pelo desespero, pelo sofrimento que vem das arquibancadas

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Ninguém percebeu, mas naquela Copa Libertadores da América, enquanto o Tijuana se preparava para bater o pênalti das quartas de final, o Atlético negociava sua alma com os Roteiristas do Futebol num beco escuro de Belo Horizonte, entre folhas de sulfite e papel carbono e uma Olivetti com a fita gasta.

Era uma negociata febril e sorrateira, como as que acontecem nas esquinas. Para que Victor brecasse Riascos aos 47 minutos, o Galo abriria mão das vitórias fáceis, simples e naturais que porventura cruzassem o caminho. Daquele dia em diante, toda conquista seria sofrida, embebida no mais franco e fidedigno desespero.

No calor do momento, querendo voltar logo para o Independência que ardia em cólera, o Clube Atlético Mineiro assinou a certidão com sangue. E distraído, não leu as letrinhas miúdas, aquelas notinhas funestas de rodapé, que diziam que não era só naquele certame que o fácil sucumbiria – era pra sempre. Pra todo o sempre, em toda a história do branco e preto, o Atlético sofreria como sofre o cão de rua.

O Galo se despedia do sossego. E começava a fazer usucapião da agonia.

Assim, o Atlético Mineiro incorporou, aos poucos, os suspiros de sua gente ao hino do clube. E tudo passou a ser sofrido.

cadafalso

Acontece que aos poucos, a massa foi tomando um gostinho mórbido pela aflição. O suspense, que antes rasgava o peito atleticano, de repente parece trazer um certo prazer, uma dose qualquer de devaneio. É o gole de trago, que primeiro machuca e depois compensa.

Agora, quando o Galo perde a primeira, a melancolia vem, presta uma visita ligeira, de médico, e logo sai, porque rápido chega a fé, a crença, a lembrança do que foi vendido naquela travessa vazia das Minas Gerais.

A cada jogo, o Atlético sobe no cadafalso, amarra a corda no pescoço e salta. A corda, fraca para uma camisa tão pesada, rompe. E o fracasso é vencido ali mesmo, jogando em casa, no seu terreno preferido.

Quem é Galo sabe, agora mais do que sabia antes, que é o padecimento que forja a vitória épica. Vencer assim é vencer de forma definitiva. É tatuar o nome na história do jogo. É narrar novas lendas. É construir um folclore fundamental.

Não há vingança se não houver primeiro uma derrota.

 

DEIXE AS CHAVES DEBAIXO DO TAPETE: O DIA EM QUE O GALO VOLTOU AO MINEIRÃO

 

As fotografias são do sempre sagaz Daniel Teobaldo, do Soulgalo

 

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15 pronunciamentos sobre

Nada será fácil para quem veste essa camisa

  1. Certamente esta e a outra crônica sobre o Galo (vitória sobre o Sta Fé) são as melhores q li nos últimos anos. Apaixonado pelas letras, valorizo quando um texto é perfeito. Eu gostaria de tê-lo escrito. Mas nunca serei capaz.
    Favoritado.
    Um abraço.

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