Memórias póstumas

Enquanto todo mundo queria a taça do Brasileirão, a Chapecoense só queria pagar um tributo aos homens que foram ao chão

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Numa mesa comprida, de madeira nobre e cadeiras elegantes, vinte e poucos homens de paletó e gravata se reúnem para um acalorado debate. Entre goles de água e sopros de ar-condicionado, eles discutem o futuro do Campeonato Brasileiro. Falam de mandos de campo, de juízes escalados para o apito, de prazos de inscrições e critérios de desempate.

Então, um deles traz à mesa o assunto nevrálgico daquela pauta: o caso Chapecoense. Poucos dias antes, o time inteiro havia sido dizimado na altitude da Colômbia, e a conversa ia pelo caminho da misericórdia: os clubes ofereciam ao Índio Condá uma imunidade de 3 anos contra rebaixamento.

Ali, a reunião mudou de clima. O tom pesaroso e triste acometeu todos os cartolas que, de repente, mostraram que seus corações, ao contrário do que se supunha, não moravam dentro do bolso.

Mas antes que os clubes pudessem avançar muito na ideia, os dois ou três homens que representavam a Chapecoense pediram a palavra. Eles davam cabo ao pensamento ali mesmo. Não queriam nenhum tipo de favorecimento. Ao contrário, pediam a igualdade entre todas as camisas. Queriam defender a permanência na Série A no campo, jogando bola – assim quereriam Caio Júnior e os homens que se foram.

E não era por orgulho, não. Era porque lá, em Chapecó, sempre foi assim. Ali, ninguém nunca recebeu nada de ninguém. Quando o clube vivia os dias amargos da Série D, nada veio fácil. Em 2003, quando o clube estava indo à falência, nenhum mercante russo apareceu com uma mala preta na porta do estádio.

Então, não parecia justo para a gente daquela terra que agora, por piedade, o time herdasse uma benesse que ninguém jamais recebeu.

E assim ficou acertado entre os cartolas todos e a CBF que a Chapecoense, mesmo sem um único jogador para pôr em cancha, sofreria as mesmas duras penitências de qualquer outro time. Ao final de tudo, se estivesse entre os 4 últimos colocados, a camisa verde estaria sumariamente dispensada da divisão de elite.

Veio, então, o Brasileirão. E a ferida ainda estava viva e aberta em Chapecó quando houve o primeiro embate. Nas bancadas, ninguém conhecia os homens em campo. Eram todos estranhos, quase todos improvisados.

Quem é aquele que vai lá com a nove? Como é mesmo o nome desse goleiro? Jogou aonde o ponta esquerda, hein?, falava-se na bancadas, num misto de curiosidade e dor.


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As rodadas vieram, uma sobre a outra, e o time foi, aos poucos, se conhecendo. Eles no campo, o povão no cimento. E de repente, todo mundo na cidade já sabia quem era Jandrei, o homem do cabelo de moça, e sabia também que Arthur, o baixinho, era levado como peste e tinha um chute carregado de ódio.

Mas o drama seguia: os pontos na tábua eram poucos e o rebaixamento era uma realidade. E tudo bem se ele viesse: era natural que um time montado às pressas, sem dinheiro, sucumbisse diante da técnica dos melhores do Brasil.

Ora, mas nada nunca foi fácil por aquelas bandas, e escapar seria só mais uma contenda na vida de Chapecó. E assim, embebidos de amor e saudade, aqueles novos soldados foram amarrando os cadarços das chuteiras com as próprias veias, foram suando sangue e bebendo fel e, de repente, aquele já não era mais o Campeonato Brasileiro, mas uma peleja particular pela honra dos homens que ficaram pelo caminho.

Os outros 19 times do campeonato queriam uma taça, mas a Chapecoense queria pagar um tributo.

Assim, com brio e honradez, entre soluços e lágrimas, o time recém-formado no oeste catarinense foi somando pontos, deitando concorrentes e se manteve na Primeira Divisão com algumas rodadas de antecedência, esbanjando até certa folga na tabela. E, achando pouco pelo que mereciam os que perderam a vida no voo 2933, o escrete verde e branco agora ainda é um competidor seríssimo na busca por uma vaga na Libertadores.

Porque os jogadores que lá estão pensam como pensamos todos nós: a América ainda precisa conhecer o time que, mesmo violentamente amputado, segue com uma vontade colossal de viver.

 

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10 pronunciamentos sobre

Memórias póstumas

  1. Velho cronista e suas manias de imputar lágrimas em nossos olhos. Você peca muito meu senhor, sabia disso? Peca porque entre uma crônica e outra, temos um colossal hiato. Escreva, apenas escreva.

  2. Sou Chape, mas precisamos agradecer sim, muitos clubes que nos emprestarão seu jogadores, muitos de graça, mas queria agradecer e parabenizar pelo texto excelente, realmente arrancaram lágrimas.

  3. E o futebol mais uma vez apronta das suas… A Chape está na Liberta de 2018! Sou botafoguense, mas eles mereceram muito mais que a gente. Que a Chapecoense siga surpreendendo à todos e mostre que o futebol ainda continua vivo nesse nosso Brasilzão.

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