Mais fraco, mas ainda o mais forte

O Cruzeiro desceu ao patamar de times comuns. E ainda assim é, de longe, o time com o melhor Futebol do país

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No primeiro turno, o escrete de Marcelo Oliveira provocava suspiros e colecionava fãs, levando cativos os devotos do Futebol bem jogado.

O onze estrelado era, sem qualquer concorrente tangível, o ponto de referência mais proeminente destas terras. Até a Seleção Brasileira em ano de Copa do Mundo queria ser vertiginosa e letal como o Cruzeiro.

Mas eis que o calendário é largo como a paciência de um monge e, agora, incontáveis rodadas depois de fascinar o Brasil, o embalo dos mineiros já não é mais o mesmo.

Na cabeça das torcidas todas e dos homens que noticiam o esporte, a desconfiança pernoita insistente, madrugada atrás de madrugada.

Placares magros como este, construído contra o Santos na Vila Belmiro, levantam orelhas. Deveria ter sido mais fácil, pensam os filósofos do irrefutável.

De fato, há razão em toda essa conjectura: o Cruzeiro não é mais o mesmo. Qualquer distraído saberia.

O que ninguém parece atentar é que ainda assim, ainda jogando uma enormidade abaixo do que andou fazendo, o onze de Marcelo Oliveira é um côvado e meio mais delirante que todo e qualquer outro time do país.

O Cruzeiro joga menos. E ainda sobra.

A impressão que dá é que o Brasileirão precisaria ter ainda mais umas 20 rodadas para alguém conseguir pôr em xeque a liderança azul, porque quando o time das Minas Gerais não encontra mais pulmão pra patrocinar espetáculos seguidos, saca das mangas azuis outros trunfos que ninguém mais têm, como o entrosamento, a fraternidade, o conjunto.

A camisa estrelada, percebam, é a única que não tem um onze titular bem definido. Sujeitos da estirpe de Dagoberto, Júlio Baptista e Manoel são frequentemente vistos ocupando o banco de suplência da Raposa – um luxo comparável apenas ao cidadão opulento que mantém o Bentley na garagem para dar umas voltas com o Rolls Royce.

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E não bastasse esse timaço jogar a fina bola, ele ainda parece ter crescido todo junto, rolando o couro por esses campinhos de terra batida e traves de sandálias Havaianas.

Peguemos a tabela entre William e Ricardo Goulart, que culminou no gol solteiro do embate, como exemplo. Aquilo ali, qualquer um sabe, não é coisa de time que só treina junto – é trama de moleque peralta, matador de aula, é conspiração de amigo que cresceu junto, que sabe onde vai pisar o pé do outro a cada descida, é maquinação de comparsa antigo. Ninguém troca passes daquele jeito sem conhecer intimamente  o sujeito que corre ao lado.

A vitória de ontem, quase anoréxica, é a prova cabal de que o Cruzeiro, de fato, já não é célere como antes, mas continua sendo o escrete mais virtuoso destas terras patrícias.

A Raposa já foi suprema. E mesmo trazida à condição de trivial, continua com alguma folga na ponta do catálogo dos times que tratam a bola com a maior grandeza e o mais distinto pudor.

 

Fotos: Alexandre Schneider / Getty Images  |  Ricardo Nogueira / Folhapress

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