Mago, pero no mucho

Apesar do amor tórrido da torcida, Jorge Valdívia não é bem aquilo esperávamos que ele fosse

valdivia_

 

POR FREUD IRÔNICO

Ele foi embora porque nunca dava a ela a atenção merecida. Depois de um início romântico, com jantares e poemas, troca os versos de amor pelas palavras ríspidas. Chegava tarde com o hálito alcoólico e batom que não era dela. Pagava o amor que recebia com descaso. Virou tormento. E foi-se.

Um dia ele bate à porta. E ela, que se imaginava forte para ignorá-lo, fraqueja. Esquece mágoa, lágrimas e sofrimentos. Abre a porta. Antes que ele fale, ela o abraça, o afaga e ignorando se ele veio para ficar ou somente pegar algo esquecido, vaticina à queima-roupa: eu te amo.

É uma história de amor vulgar, mas resume a relação entre a torcida palmeirense e Valdívia. O chileno conquistou a todos em sua chegada. Craque do Brasileiro de 2007. Maestro do título paulista de 2008. Depois, a cabeça não parava mais no Palestra. Pensava nas cifras que o exterior lhe prometia. Saiu, ferindo o orgulho de muitos corações alviverdes.

Retorna em 2010, com juras de amor. “Voltei para ser campeão.” Cumpriu com o título da Copa do Brasil 2012, sem evitar, contudo, as polêmicas, as lesões e o dolorido rebaixamento no mesmo ano do título.

 

valdivia_velazquez

 

Até o quarto dia do quarto mês da graça de 2015, não havia jogado pelo Verdão neste ano. Com pilhéria, lembravam que o septuagenário Ademir da Guia já havia jogado (em amistoso festivo) e ele não. A relação com a torcida parecia insustentável. Mas aos 20 minutos da etapa final do jogo contra o Mogi-Mirim, o palestrino esqueceu tudo. Apaixonado, grita por Valdívia e vai à loucura quando ele vem a campo.

Ele entra. Joga intensamente. Passa por dois, por quatro. Perde gols e é aplaudido por cada um dos torcedores presentes na Arena que anseiam por acreditar: “Ele voltou”. Na entrevista pós-jogo, contudo, Valdívia não garante ficar no Palmeiras, fala com frieza sobre o clube e deixa aberta, inclusive, a possibilidade de envergar outra camisa nacional.

Quem explica essa idolatria? Quem explica o amor? Irá ele assumir de vez a posição de ídolo que os palmeirenses o conferem ou irá feri-los com nova despedida? A bola está com Valdívia. Para ajudá-lo a decidir se a alcunha El Mago lhe cabe pelos encantos que ele faz com ela ou se pela mágica ardilosa de manter apaixonados tantos corações que ele faz sofrer.

 

Foto de capa: UOL  |  Foto de apoio: Roberto Vazquez / Futura Press

PartilheTweet about this on TwitterShare on Facebook

3 pronunciamentos sobre

Mago, pero no mucho

  1. Hoje vemos nossos ídolos dizerem palavras como independência financeira, ou ciclo vitorioso. A torcida mantém e alimenta paixões dentro de um futebol que mata ídolo a ídolo com o dinheiro e as mídias.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *