Lobos a cuidar de cordeiros

O futebol anda sendo regido por gente que não nos deixa nada – nem mesmo ser feliz com nosso povo

alexandre_cassiano

 

POR FREUD IRÔNICO

É doloroso ver mãe ou pai, ícones do amor e proteção, aplicar maus tratos a seus rebentos. Situação anti-natural, a qual se espera exatamente o oposto: o zelo pela prole, o apontamento dos melhores caminhos a seguir, a confiança mútua e o desejo de melhor para aquele que está sob sua responsabilidade.

A cruel realidade da vida, porém, se torna metáfora perfeita ao trato que a Confederação Brasileira dá ao futebol, paixão e símbolo nacionais que, por infelicidade do destino, acabou sob sua guarda.

Demandaria texto extenso, laudas infinitas, parágrafos a perder de vista para listar, uma a uma, todas as bizarras e grotescas situações que a CBF impõe ao esporte que já foi orgulho do país. Contudo, uma delas, coisa recente, ilustra de maneira inequívoca as atitudes quase repulsivas que a cartolagem tupiniquim, sabe-se lá o porquê, adota.

Não há no futebol momento mais extático, primoroso, orgasmático do que o gol. Instantes em que os problemas pessoais perdem todo o seu sentido. Castas sociais são lançadas ao solo e abraços explodem em reações tão imprevistas que o preconceito resolve esconder-se sob sua própria vergonha.

Coube, pois, às novas arenas, tão criticadas pela seu jeito blasé, permitir uma graça inédita em terras brasileiras: unir, após o tão esperado tento, atletas e torcedores num laço único ao ponto de, em míseros segundos, torcida e time serem, na prática, aquilo que o são em teoria, uma coisa só.

E aí, após o encontro fraterno entre ídolos e discípulos o que ocorre? Uma punição. Sim, senhores, os dirigentes a quem confiamos cuidar desse nosso patrimônio bretão orientam aos que sopram o apito aplicar cartões punitivos àquele atleta que, à explosão lépida de estufar a rede adversária, ousou compartilhar seu gozo junto àqueles que tanto incentivo lhe prestaram até então.

Por essas e outras, meus caros, fica explícito que, na bola, pusemos o lobo a cuidar dos cordeiros. E ainda não compreendemos por que ele nos comeu sete e, como que penalizado, apenas nos deixou um.

 

SOBRE ABRAÇOS E AFAGOS – UMA CRÔNICA SOBRE O DIA EM QUE DOUGLAS COUTINHO FOI COMEMORAR COM O POVÃO

 

Foto de capa: Alexandre Cassiano / O Globo

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