Lágrimas, bem-vindas de volta

O sempre sagaz Freud Irônico celebra o que parece ser uma réstia do amor ao Futebol

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Tem sido cada vez mais raro. Quando digo a alguém que ainda espero algo do tipo no futebol, viro galhofa. E talvez por isso, dada a escassez do motivo, meu coração palpite tanto quando encontra um mínimo fato para acreditar que ainda sobrevive o desenganado “amor pelo futebol”.

Pelejavam duas das maiores camisas do país. Os alvinegros Santos e Corinthians renegavam suas tradições e destratavam a tão famosa Vila com um duelo desnutrido de emoção.

Quando, contudo, a primeira etapa caminhava para o seu ocaso, o santista Alison parte para proteger sua retaguarda como um pai de família defenderia sua prole frente a perigoso vilão. Atabalhoado, derruba o corintiano Elias. Já apresentado a ele anteriormente, o cartão amarelo traz, desta vez, seu consorte vermelho.

E rubro, quem fica, é Alisson. De início, pelo sentimento de injustiça. Alega que não fez a falta. O videotape permite as mais variadas análises. A vida, contudo, não considera repetições. E a voracidade das objeções cede lugar ao escarlate do constrangimento. Os gritos se liquefazem e as lágrimas vem à tona. Em prantos, Alisson faz lembrar os guris que sofrem em campeonatos desconhecidos. Se nada valem à maioria, são verdadeiras copas do mundo para eles. Não pelo troféu. Menos pelo reconhecimento. Somente pelo sentimento que os leva ali. O velho, moribundo, agonizante e resistente “amor pelo futebol”.

Alison não faz ideia do papel que teve na tarde de ontem. Que seja julgado pela infração que cometeu. Não é isso que pretendo discutir. Por mim, desejo apenas registrar o valor de suas lágrimas. Justas ou não, elas banham a esperança de que ainda se jogue futebol com brios. De que o sangue que corre nas veias possa determinar mais do que o cérebro que calcula os dividendos.

Em uma época de futebol tão sofrido, nunca foi tão esperançoso ver alguém sofrer pelo futebol.

 

Foto: Uol

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